12 agosto, 2007

Kennedy Alencar, sem saber, demonstra a covardia de Lula.

Kennedy Alencar ficou famoso - porque antes quase ninguém ouvira falar dele - quando antecipou, em dias, uma sentença judicial contra o colunista de Veja, Diogo Mainardi, antes mesmo do magistrado que julgava o caso, dar o seu veredito. Aqui mesmo, neste blog, eu já havia apontado para os poderes premonitórios de Alencar. O futuro do jornalismo é ser como Kennedy Alencar: noticiar fatos antes mesmo deles acontecerem.

Fazia tempo que eu não citava Kennedy Alencar no meu blog. Inorava-o solenemente; outras leituras me eram mais caras. Todavia, hoje, sua coluna na Folha on line, superou todos os limites da picaretagem jornalística. Kennedy pavimenta seu caminho em direção à TV Pública, para onde eu torço que ele vá. Quanto mais canalhas fazendo essa estrovenga autoritária, melhor.

Kennedy escreve um artigo cujo título já é revelador: Por que Lula demorou 73 horas a falar sobre o acidente. Fiquei curioso com os argumentos que o jornalista elencaria. Li, e fiquei estarrecido! Vamos ao texto dele:


"Falta de informação segura sobre a causa do acidente da TAM. Receio de que palavras suas pudessem ser interpretadas por familiares dos mortos como tentativa de se eximir de eventual responsabilidade ou de mostrar solidariedade apenas por cálculo político. Decisão de anunciar medidas concretas em resposta à crise aérea, que ganhava então sua feição mais dramática."
Eu, que não tenho a mesma sofisticação jornalística de Alencar, nem domino o vocabulário melodramático dele, interpretei o parágrafo acima, da seguinte maneira: Lula foi covarde! Não se exigia de Lula uma resposta para a causa do acidente. Ele não é especialista em avião (Ele o é em alguma coisa?). Medo de ser mal interpretado? Ora, um líder não pode ter esse tipo de medo. Se fosse mal interpretado, seria um risco a que os grandes líderes, quase sempre, se expõem. Lula, que moralmente é um anão, ficou ainda menor. No trecho acima fica evidente que, desde o começo, Lula fez cálculo político, mesmo temendo que sua palavras ou atitudes fossem, vejam a ironia, tidas como cálculo político. Quando decidiu anunciar "medidas concretas", depois de 10 meses de caos aéreo, Lula assumia a resposabilidade, finalmente, sobre a crise; e, claro, sobre as causas, mesmo que indiretas, do acidente da TAM.

"Evitar conflito com setores da oposição e da mídia que apontavam culpa do governo por conta da suspeita de pista lisa em tempo chuvoso. Inflamação da pálpebra no dia seguinte à tragédia que exigiu cirurgia, tapa-olho com gelo e sedativo que o fez dormir boa parte da tarde. Por último, dificuldade para lidar com a morte --tema que evoca lembranças dos falecimentos de sua primeira mulher, Maria de Lourdes, em 1971, e de sua mãe, Eurídice Ferreira de Melo, chamada de dona Lindu, em 1980."

Mais uma vez temos aí a prova de cálculo político. Lula, nem um minuto sequer, pensou na dor dos familiares das vítimas. Pensou, isso sim, em evitar conflitos com a oposição ou ser mal interpretado pela imprensa e pelos familiares. Esse receio de Lula foi antes sinal de covardia que de ponderação. A pérola do trecho é: "Por último, dificuldade de lidar com a morte(...)" Quem tem facilidade de lidar com a morte? A partir desse ponto, Kennedy tece o eixo de seu artigo. Lula sofreu com a perda da mãe, por isso, por causa das lembranças do passado, não soube como agir, daí a demora em se pronunciar. Se Lula fosse seu Jeremias da venda, eu entenderia seus traumas particulares. Mas Lula, vejam só, é o presidente do Brasil. Sua declaração deveria ser a de homem de estado, não a de um cidadão acabrunhado por traumas pessoais.

Os bastidores do poder:

"Lula estava em seu gabinete no terceiro andar do Palácio do Planalto quando o brigadeiro Joseli Parente Camelo, chefe das missões aéreas da Presidência, lhe disse que um acidente acontecera no aeroporto de Congonhas. "O gabinete ficou cheio de gente em frente da televisão, num ambiente de velório e tensão", de acordo com um dos presentes.

Lula criou um gabinete de crise com os ministros Dilma Rousseff (Casa Civil), Franklin Martins (Comunicação de Governo), Waldir Pires (Defesa) e assessores, como o seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho. Perguntas óbvias foram feitas pelo presidente. Quantos morreram? Havia sobreviventes? Causas?

Enviado para São Paulo, o brigadeiro Juniti Saito, comandante da Aeronáutica, conversaria com o presidente por telefone mais tarde e deixaria claro que a dimensão do acidente fora tremenda. Relatou que provavelmente não havia sobreviventes. A tese de "tragédia anunciada", levantada por jornalistas, políticos da oposição e pelo Sindicato Nacional dos Aeronautas, causou preocupação no gabinete de crise.

Segundo relato de auxiliares, Lula pediu "calma" em relação ao que foi chamado no Palácio do Planalto de "ataque furioso da imprensa". O presidente disse que o acidente seria investigado, que não adiantava ficar brigando e que não falaria enquanto não tivesse o mínimo de informação segura. Autorizou apenas a nota de pesar lida pelo porta-voz da Presidência, Marcelo Baumbach. O presidente e os ministros deixaram o Planalto depois da meia-noite. "


Enquanto Lula fazia perguntas sobre a quantidade de mortos no acidente, o governador José Serra, correndo o risco de sofrer apupos, estava no local da tragédia, e, sem criar falsas expectativas, declarou que pela dimensão do acidente, não haveria sobreviventes. Não estou aqui discutindo política, mas ações. Lula se acovardou diante da tragédia. Serra, não.

Prestem atenção a este trecho: "A tese de "tragédia anunciada", levantada por jornalistas, políticos da oposição e pelo Sindicato Nacional dos Aeronautas, causou preocupação no gabinete de crise." A preocupação no gabinete da Crise não foi com os familiares ou com as ações que deveriam ser tomadas, mas com a tese de "tragédia anunciada". Nem na hora de um luto nacional, eles deixaram de pensar na política. Eles, sim, e não a imprensa, politizaram o acidente. Talvez por isso, quando se aventou uma falha humana ou da aeronave, aquele assessor de Lula, Marco Aurélio, o obsceno, tenha reagido da maneira que reagiu.


Lula não se pronunciou porque queria maiores informações. E sabe para quê? Para se defender dos ataques da imprensa, e embora tímidos, também da oposição. Lula queria mais informações para não parecer um pateta, e não, para dar uma resposta à Crise Aérea. Lula se escondeu atrás dessa desculpa para não enfrentar os parentes das vítimas.

"No dia seguinte, Lula acordou com "um terçol do tamanho de um bonde", nas palavras de um auxiliar. De manhã, fez pequena cirurgia na pálpebra superior do olho direito. Antes de tomar sedativo, o presidente decidiu que precisava demitir Waldir Pires da Defesa rapidamente.

Autocrítica feita por Lula e toda a equipe: o governo demorou a entender a gravidade da crise aérea e errou ao não substituir Pires no final de 2006, quando o presidente já havia tomado a decisão de tirá-lo. O presidente aguardava um momento de trégua na crise aérea para trocar Pires, mas acabou demitindo-o nas piores circunstâncias possíveis para quem desejava preservá-lo pessoal e politicamente.

O presidente determinou que emissários voltassem a convidar para o cargo o ex-presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) Nelson Jobim, que já havia recusado a tarefa semanas antes da tragédia. (Dias depois, numa operação que envolveu amigos e até um oposicionista, Jobim aceitaria o cargo.)

Feita a cirurgia, o presidente foi para o Palácio do Planalto, onde deu as orientações para a nova tentativa de convencer Jobim a assumir a Defesa. Dirigiu-se por volta das 13h para o Palácio da Alvorada, sua residência oficial. Sob medicação, Lula dormiu até o fim da tarde do dia 18 de julho, uma quarta-feira. No início da noite, o gabinete de crise voltou a se reunir no Palácio da Alvorada. Lula recusou sugestão de "mostrar presença solidária", indo ao local do acidente ou se manifestando pessoalmente. Julgou que poderia soar como ato de marketing. Optou por falar em pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV, mas somente depois de adotar medidas concretas e de ter alguma noção da causa do acidente.

Lula marcou reunião da cúpula do governo e do Conac (Conselho de Aviação Civil) para a manhã seguinte. Acelerou a adoção de medidas que estavam em estudo: fim de escalas e conexões em Congonhas em 60 dias, proibição de vôos fretados no aeroporto, redistribuição de vôos para outros aeroportos e apresentação em 90 dias de estudo sobre o local de novo aeroporto em São Paulo.

O texto do pronunciamento foi escrito por Franklin Martins, com sugestões do marqueteiro João Santana, de outros ministros e do próprio Lula. Na noite de sexta-feira, 20 de julho, mais de 73 horas depois da tragédia, Lula disse em cadeia de rádio e TV que estava com "o coração sangrando". Pediu que não fossem feitos julgamentos "precipitados". Os corpos ainda estavam sendo resgatados e um auxiliar do governo declarou que Lula estava com um terçol do tamanho de um bonde. Lula, então, antes de ser sedado, decidiu que deveria demitir Waldir Pires, logo. O presidente teve mais consideração pelo ministro incompetente, do que pelas 154 vitimas do acidente da GOL, ou mesmo as 199 da TAM. Foram preciso 360 famílias enlutadas, para Lula, após 2 semanas, demitir Waldir Pires."

Lula se recusou a mostrar "presença solidária" no local do acidente, pois temia que tal atitude fosse vista como jogada de marketing. Porém, na hora de ler o pronunciamento oficial em cadeia de rádio e TV, não deixou de dispor da ajuda do ministro Franklin Martins e do, vejam só, marketeiro João Santana.

O corolário do argumento.

Um amigo antigo de Lula conta que em poucos episódios o viu tão abatido. Diz que ele repetia um bordão nos dias posteriores à tragédia. "Nada do que a gente fizer vai resolver o principal: devolver a vida a essas pessoas".

De acordo com esse amigo, Lula lida mal com a morte. Dois episódios contribuiriam para isso. No ano de 1971, a primeira mulher, Maria de Lourdes, grávida de sete meses, chegou ao hospital com hepatite. Suposta negligência no atendimento resultou na morte dela e do bebê. Quando a mãe de Lula morreu, em 1980, ele estava preso devido a greve no ABC. Foi liberado pelo então delegado Romeu Tuma, hoje senador pelo DEM de São Paulo, para acompanhar o velório e o enterro. Depois, retornou ao Dops, órgão de repressão política da ditadura militar.

A tragédia da Airbus da TAM e a lembrança das mortes da primeira mulher e da mãe teriam deixado o presidente algo paralisado em alguns momentos.


Lula ficou abatido. Tão abatido, que ficou paralisado. O tempo inteiro, Kennedy tenta mostrar que o sofrimento de Lula, seus traumas pessoais, justificaram a demora de Lula em se pronunciar. No final, talvez, os familiares que perderam seus entes, tivessem que se desculpar com o presidente, pela dor que ele sentia, por causa da lembrança das mortes da mãe e da ex-mulher. O sofrimento de Lula, com perdas de 20 e 30 anos atrás, era maior do que o sofrimento das famílias que ainda não tinham o direito - muitos ainda não tiveram - de enterrar seus mortos.

Para quem sabe ler, Lula não se pronunciou porque foi covarde! Porque o tempo inteiro esteve mais preocupado com o custo político da tragédia do que em prestar solidariedade às famílias. Sua conternação foi tão fria, tão fajuta, que não houve uma só pessoa convencida pelo seu pronunciamento.

O artigo de Kennedy, a despeito do objetivo dele, mostrou a verdadeira face de Lula e de seu Gabinete da Crise: a face da covardia, da frieza política, da pusilanimidade, tudo, disfarçado de falsa consternação.

2 comentários:

Ricardo Rayol disse...

O que dizer? Eu também posso falar um monte de coisas. O apedeuta fooi covarde e mostrou sua real estatura, como bem disse. O resto é papo pra boi dormir. O interessante que levou quase um mês para arquitetarem a desculpa.

Blogildo disse...

Alencar não se faz de avexado quando se trata de defender seus interesses. Sabe o que é pior? Ver petistas dizendo que a Folha é de direita. Vá entender...