05 agosto, 2007

Carta ao meu pai

Falar sobre meu pai não é fácil. Falar de meu relacionamento com ele, é ainda mais difícil. Hoje, 5 de agosto, meu pai faz 56 anos. Estou longe dele e de todos os meus familiares desde dezembro de 2003. Minha última visita a Recife foi em 2005, 3 semanas. De lá para cá, não vi mais o meu pai, nem os meus irmãos.

Houve uma época em que vendi, nas feiras livres de Recife, bermudas, junto com meu pai. Lembro bem que para irmos ao bairro de Casa Amarela, onde há uma feira famosa, atravessávamos o Capibaribe de bote, e a pé chegávamos à feira. Com duas sacolas pesadas cheias de bermudas, meu pai muito envergonhado. Tenho certeza do quanto era difícil para ele fazer aquilo, e pior, me ver, com 14 e 15 anos, trabalhando como ambulante. Nunca senti vergonha, meu pai, nunca. Achava muito divertido, sobretudo quando vendia mais do que o senhor, o que era raro, confesso.

Numa certa manhã, não havia nada em casa, assim, de comer no almoço. Só havia bermudas. Papai e eu pegamos as roupas, e, à pé, porque não tínhamos como pagar a passagem do ônibus, fomos à feira de Afogados. Nunca andei tanto na minha vida. Se não vendêssemos nada, teríamos que voltar da forma que fomos, famintos e com péssimas notícias para minha mãe e meus irmãos. Graças a Deus, vendemos bem naquele dia. Vender bermuda com meu pai foi o momento em que ficamos mais próximos.

Quando eu ficava com raiva de meu pai, sobretudo quando ele bebia e arrumava confusão na rua e em casa, e ficava com a boca suja, dizendo palavrões cabeludos, sofria em silêncio. Como eu sofria em ver meu pai naquele estado, desrespeitando a gente, a minha mãe e a si mesmo. Sofria tanto que tomei aversão por bebida alcoólica. Não bebo nada alcoólico, e peço a Deus todos os dias, que meu filho Estevão, com apenas três meses, também não toque em bebida.

Apesar desses problemas, havia muitos momentos engraçados. Quando eu e meu irmão éramos dois meninotes, papai contava estórias de terror, como a do “João do Pão”, a minha preferida. Outras vezes, contava estórias tristes, de separação, como a estória de Pião. Minha irmã ainda mais nova que a gente, era o xodó de meu pai. Num quarto onde todos dormiam, brincávamos de “cumpáde” e cumáde”. E meu pai, cheio de criatividade, se cobria com o lençol como se estivesse numa barraca e falava da cheia, quando estava chovendo em Recife, ou da escuridão da mata, quando a energia caía no bairro. Essas brincadeiras não duravam tanto, mas eram muito boas.

Outra lembrança forte de meu pai, é quando algumas pessoas iam lá para casa para beber, tomar cerveja, cana, mesmo. Minha avó, D Beatriz, mãe de meu pai, tinha um bar no terreno onde morávamos, logo, sempre tinha gente por ali tomando uma. Eu normalmente não ficava junto, mas de longe, observava a mesa cheia de copos e com pratos de tira-gosto. Talvez por isso, sempre que ouço a música Naquela Mesa, de Sérgio Bittencourt, imortalizada na voz de Nelson Gonçalves, lembro de meu pai. Quando ouço essa música, quando tento cantarolá-la, não tem jeito...

Hoje meu pai faz 56 anos, há dois não o vejo pessoalmente, e a saudade é grande. Vou postar a letra da música, aposto que muita gente a conhece, sendo capaz inclusive de cantá-la. Mas a estou postando para mim, para meu filho Estevão, para sempre que a saudade apertar, como agora, eu possa vir aqui e lembrar de meu pai e chorar sozinho.

Feliz aniversário Papai e Feliz dia dos Pais

Seu filho, Junior.



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NAQUELA MESA (1970) compositor: Sérgio Bittencourt

Intérprete: Nelson Gonçalves

“Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu trago e sei de cor
Naquela mesa ele juntava a gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho, eu fiquei seu fã

Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim”



PS: Se você não conhece a música ou quer ouvi-la em duas versões, clique aqui. Você vai entrar na Rádio USP, aí você procura o terceiro bloco, clica, vai aparecer o Media Player e com o mouse você move o cursor para a metade e aí é so escutar a música.

3 comentários:

Blogildo disse...

Que texto emocionante. Não sei quem é meu pai. É uma história comprida. Mas foi um bocado edificante ler sobre seu sentimento em relação a seu pai. E é mais significativo sabendo que vc também é pai.
Estevão é um guri de sorte!

Suzy disse...

Costajunior, não sou "DEMO", mas você me fez chorar, me fez lembrar da minha infância. Se eu fosse você, enviava essa carta ao seu pai. Tenho certeza de que ele vai amar saber o quanto você o ama.

PATRICIA M. disse...

Bom, estou no outro time. Nao falo com o progenitor ha 7 anos e nao pretendo falar pelo resto da minha vida (ou da vida dele, o que morrer antes). Eh. Que bom que voce tem pai. :-)