23 agosto, 2007

Ali Kamel, o bundão de Serjão.

No mês de julho, o ótimo blog do Serjão, no prêmio semanal, Bundão da Semana, elegeu Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo. O motivo da comenda foi por conta da cobertura da TV Globo no dia da tragédia com o avião da TAM. A argumentação de Serjão se baseava no fato de a TV Globo não ter interrompido a programação para dar prioridade absoluta ao acidente com o airbus da TAM. Eu, e alguns outros leitores assíduos dO blog - os post são muito bons - discordamos da análise, mas a grande maioria dos que comentaram, aproveitaram para destilar seus ressentimentos de DNA esquerdopata contra a TV Globo.

O bundão Ali Kamel acaba de lançar um livro imperdível - já havia escrito o excelente Não somos racistas - e apesar de algumas análises do jornalista, no livro Sobre o islã, ainda encontrarem alguma resistência no meu espírito ocidental, a leitura vale para nos deliciarmos com a erudição do jornalista. Para provar que às vezes um bundão tem algo a dizer, vou reproduzir um artigo de Ali Kamel em O Globo, mas copiado do blog do Reinaldo Azevedo. Às vezes vale a pena ler o que alguns bundões escrevem.

A grande imprensa

A grande imprensa está sob ataque. Não do público, que continua considerando o jornalismo que aqui se produz como algo de extrema confiabilidade, conforme atestam pesquisas de opinião recentes. Os ataques vêm de setores autoritários e antidemocráticos, que, diante do noticiário, sentem-se ameaçados. Esses setores consideram que só é notícia aquilo que, em nenhuma hipótese, atrapalha os seus planos de poder. Não importa que alguns acontecimentos lhes sejam embaraçosos; importa que ou não sejam noticiados ou sejam levados ao público de tal forma que o efeito, para eles, seja positivo ou neutro. Já disse uma vez: isso não seria jornalismo, mas propaganda.

Evidentemente, em seus ataques eles não deixam transparecer essa verdade. Tão logo surge um evento que eles consideram desvantajoso, começam a gritar, dizendo que não é o evento que lhes faz mal, mas a cobertura da grande imprensa. Costumam seguir o seguinte padrão: mentem, atribuem à grande imprensa coisas que ela não fez e denunciam conspirações que não existem. Sempre num tom indignado, dourando a grita com defesas “apaixonadas” da liberdade de expressão e do que chamam de democratização da mídia. Um disfarce. Às vezes, publicam livros, financiados por partidos, com estudos pseudocientíficos como os que tentam demonstrar que, em 2006, os jornais penderam pesadamente a favor de Alckmin e contra Lula, no noticiário eleitoral. Tais estudos se esquecem apenas de contar que todo o noticiário sobre o mensalão e outros escândalos foi considerado prova de desequilíbrio contra Lula. Ora, se é assim, qual seria a alternativa para que o estudo apontasse equilíbrio? Não noticiar os escândalos? Mas isso sim seria perder o equilíbrio e a isenção.

É uma tautologia, mas, na atual conjuntura, vale dizer: o jornalismo só é livre e independente quando não depende de nenhuma fonte exclusiva de financiamento. Quanto mais variadas forem as fontes de recursos que sustentam um jornal, uma revista, um portal de internet ou uma emissora de rádio e televisão, mais livres e independentes serão estes veículos. O leitor pode fazer o teste. Veja os anunciantes da grande imprensa e verifique: a variedade é tanta que o veículo não depende, nem de longe, de ninguém isoladamente para sobreviver. E por isso é livre. E por isso é independente. O leitor poderá fazer outro teste. Procure algum veículo que se diga livre e independente e ao mesmo tempo se dedique costumeiramente a atacar a grande imprensa e a defender este ou qualquer governo. Veja os anunciantes. Eles serão poucos e a concentração, grande. Quase sempre, será propaganda governamental. Se o veículo for um portal de internet, verifique quem são os controladores: fundos de pensão de órgãos do governo.

Portanto, livre mesmo, só a grande imprensa. Só ela tem os meios para investir em recursos humanos e tecnológicos capazes de torná-la apta a noticiar os fatos com rapidez, correção, isenção e pluralismo, sem jamais se preocupar se o que é noticiado vai ser bom ou ruim para este ou aquele cliente, para este ou aquele governo. A grande imprensa sabe que o seu compromisso é com o público, que lhe dá a audiência que lhe traz publicidade. A grande imprensa sabe que o público exige informação de qualidade e que não pode ser enganado. O grande público é o que faz as suas escolhas cotidianas de acordo com o que é melhor para si, é o mesmo que tem discernimento para votar, para eleger seus governantes. Consumidores exigentes, grande público e cidadãos conscientes não são três entidades distintas, mas uma única realidade.

Na cobertura da tragédia da TAM, a grande imprensa se portou como devia. Como não é pitonisa, como não é adivinha, desde o primeiro instante foi, honestamente, testando hipóteses, montando um quebra-cabeças que está longe do fim. A nação viveu um descalabro aéreo nos últimos dez meses? Então é necessário testar qual o impacto dessa desordem no acidente (e, hoje, ouve-se o ministro da Defesa dizer que a prioridade não é mais o conforto ou a ausência de filas, mas a segurança, uma admissão cabal de que, antes, não era assim). A pista de Congonhas estava escorregadia (a ponto de no dia anterior ao desastre, uma aeronave deslizar até um canteiro e outra quase se espatifar no fim da pista)? Então é preciso verificar se a pista foi fundamental no desastre. Chegam informações de que a manutenção da TAM é falha? Então é preciso saber como estava o avião acidentado (e descobrir que ele voava com o reverso pinado). A análise da caixa preta ficou pronta? Então é preciso tentar revelar o seu conteúdo e mostrar que uma falha do piloto pode ter sido a causa do acidente. É a grande imprensa que noticia tudo isso, passo a passo, tendo apenas em mente informar o grande público, sem pensar no impacto negativo ou positivo que isso terá para o governo ou para a companhia aérea.

É assim aqui, é assim em todas as democracias. Quando do furacão Katrina, a imprensa americana, num continuum, testou muitas hipóteses: noticiou que aquela era uma tragédia anunciada, mostrou que houve cortes federais para obras urgentes nos diques que se romperam, denunciou a inépcia do governo no socorro imediato às vítimas. E a única coisa que o governo fez foi se defender, com dados e argumentos. O público pôde julgar quem estava com a razão. Ninguém ouviu de aliados de Bush que a mídia queria derrubá-lo, provocar o seu impeachment, desestabilizar o seu governo.

Já aqui, temos de conviver com essas bazófias. Porque aqui, ao contrário de lá, há quem queira que a informação esteja a reboque de projetos de poder.

8 comentários:

PATRICIA M. disse...

Ali Kamel eh muito bom e um cara muito decente. Esse pessoalzinho que nao gosta dele eh petralhada disfarcada. Os mesmos que nao gostam de RA, de OC, e desses outros conhecidos... Tsc tsc tsc.

Vai ver os tais petralhas disfarcados vao ajudar os petralhas assumidos a botar fogo na rede globo. Que raivinha, heim.

Costajr disse...

Não sou muito fã do Olavo de Carvalho. Li o seu famoso Imbecil Coletivo, e apesar de concordar com muitoque está ali, tenho minhas divergências. Acompanho muito espaçadamente o blog dele.

Assumo que sou fã do Reinaldo! Leio os textos dele e presto muita atenção na construção sintática do período, sempre aprendo com ele.

Serjão não é petralha, aposto. Fez uma análise, para mim, equivocada. (já discordamos também no caso dos cubanosm, se bem que, mais na forma que no conteúdo)

Quanto aos comentadores... Hummm, podem não ser petralhas assumidos, mas fazem o jogo dos bandidos!

Serjão disse...

1) Elegi o cara por que ele é o chefe. Possa ser que não seja o respónsável direto pelo caso.
2) Nem por um momento estou na turma que aproveitou para "destilar seus ressentimentos de DNA esquerdopata contra a TV Globo."
Já te disse, Costa. Não sou Brizola. Minha análise foi apenas jornalística. Mas que o RA puxa um pouco do saco da Globo ele puxa, Até novela ele já elogiou. Ng é perfeito
3) petralha disfarçado. Putz. Finalmente alguém inteligente percebeu.
4) cara, eu não faço outra coisa a não ser discordar de vc (rsrsrs)
Abração

Costajr disse...

Oh, Serjão, não perca seu tempo discordando de mim, não vale a pena, acredite!

PATRICIA M. disse...

Eu nao falei do Serjao, voces que entenderam assim. Esta cheio de petralha disfarcado na blogosfera, alguns ate conscientes de que sao petralhas. Outros nao.

Basta circular pelos blogs por ai e constatar.

PATRICIA M. disse...

By the way, procurei o post ontem no blog do Serjao (antes de fazer o comentario) e nao achei. Por isso nem sei quem comentou o que por la. Mas que a petralhada de plantao tem raivinha da Rede Globo, ah isso tem. Nao da para negar.

Desconfio tambem de todo mundo que fala mal da Veja. Nao que a revista seja perfeita, mas eh a melhor que o pais possui.

PATRICIA M. disse...

Ah, so para completar: eu tambem nao sou fan da Globo nao. Alias, nao sou fan de canal nenhum de tb aberta no Brasil. So assisto National Geographic, Discovery, History, Commedy Central, e quando quero noticias ligo a Fox.

Mas o povao nao tem tv a cabo. E entre Globo e o resto, a Globo eh muito mais decente. O resto eh uma desgraceira so, todos vendidos. Bispo Edir Macedo? Neeeemmmm que a vaca tussa. Bandeirantes GameCorp? Pffffffff.... SBT? Sei la, nao curto os caras e desconfio deles.

Blogildo disse...

Os bundões também amam!