16 julho, 2007

Você venderia sua alma?





















Eu estava na faculdade, quando o professor Bil Vicente, que ministrava para minha turma, duas disciplinas: Moderna 1 e América VI; apresentou-nos a um filme antigo, com um título enorme: O Homem que não vendeu a sua alma. (A Man for All Seasons). O filme me impressionou sobremaneira.

Quando me mudei para Brasília, procurei o filme em diversas locadoras, inclusive na Oscarito da 407 norte, famosa por ter filmes antigos, e nada. Ao descobrir que o filme fora relançado em DVD, comprei-o. Recomendo a vocês.

A película britânica é de 1966 e ganhou 6 oscars. O filme, que trata das reformas religiosas do século XVI, hoje pode ser “relido” como uma apologia à decência e à honestidade. Em muitas cenas, o paralelo com a recente história de escândalos no Brasil, com o puxa-saquismo de certos setores, e com as pessoas que não se vendem por dinheiro ou honraria alguma, pode ser feito de maneira simples.

Os diálogos, inteligentes e com uma boa dose de humor, também servem para refletir. Vou destacar alguns de memória, depois vocês conferem quando, ou se, forem assistir.

Em um deles, o jovem Rich suplica a Thomas More um cargo na corte em Londres, e o grande humanista, que era apenas um conselheiro do rei Henrique VIII, mais que acabará sendo nomeado chanceler do reino, nega o pedido e sugere o cargo de professor. A decepção é notória do jovem Rich. (Desde aquela época, parece, o magistério não atraía tanto.) Aí vem o diálogo que reproduzo em essência, não em fidedignidade.

--- Professor? Diz Rich decepcionado.

---- Sim. Acho que você seria um bom professor.

---- Mas assim eu não ficaria conhecido na corte.

---- Mas seria conhecido e reconhecido por seus alunos, por você e por Deus. Quer platéia melhor?

Em outro trecho, na verdade, antes desse diálogo, Thomas, que tem o cargo de juiz, depois de uma audiência tensa com o cardeal de Londres, Wolsey, vivido por Orson Welles, que pede a More que concorde com o novo casamento do rei - essa é a linha central do filme - o humanista inglês é cercado por gente simples que, como era comum na época, e é ainda hoje, principalmente nessas plagas, oferecem presentes, à guisa de propina, para que o juiz decida a favor de seus pleitos. O curioso é que para os pobres ele dispensa o mesmo tratamento que dispensará, um pouco mais adiante, a um nobre.

O filme é uma aula de inteligência, de Direito, da importância de se cumprir e respeitar a lei. Aliás, num outro diálogo, com o seu genro, Thomas More afirma que: "sim, daria ao diabo – estamos no século XVI, essa expressão não é retórica – a proteção da lei. Porque no fim, estava era protegendo a todos, dando ao diabo tal benefício."

Para terminar, quase no fim do filme, Thomas, depois de acusado injustamente por Rich, aquele a quem recusou um cargo na corte ( a política é cruel, meus amigos, sobretudo para gente decente.) pergunta aos juízes o que significa o símbolo numa corrente que está no pescoço de Rich. Os juízes respondem:

--- Ele foi recentemente nomeado Procurador de Gales.

Com um olhar triste de decepção, Thomas conclui:

--- Jesus afirmou: de que valeria ao homem ganhar o mundo todo e perder sua alma? Por Gales, Rich?



Thomas More ficou famoso também por ter escrito Utopia, que em grego significa lugar nenhum. Esse livro é uma obra clássica do humanismo europeu do século XVI.

5 comentários:

PATRICIA M. disse...

Costa, I sold my soul to rock'n'roll hehehehehehe. Brincadeira.

:-)

Nao vi o filme, verei assim que possivel.

Blogildo disse...

Vou procurar esse filme. Me lembrou "As bruxas de Salém".

Quanto a Gabi...a qualquer momento nasce. Estamos torcendo para o parto ser normal. Talvez essa semana ou mais tardar na próxima.
Expectativa total!

E o Estevão? Como está?

Costajr disse...

Blogildo, você verá que ele supera, em tudo, As Bruxas de Salém. É um filme maiúsculo, de uma moral tão escassa quanto rara, nos dias de hoje.

Patrícia, talvez você encontre o filme em preto e branco, era assim no original. A versão relançada foi remasterizada e colorida por computador.

Assistam, ponho a mão no fogo por ele.

Anônimo disse...

Parabéns pelo blog e pelas crônicas. Vi o seu comentário no blog do Samarone e resolvi xeretar a sua página.
Um abraço, Paulo
www.aquiaa.blogspot.com

Marcus Mayer disse...

Caro Costa Jr.,
que ótima indicação de filme. Também tenho gosto por películas históricas, principalmente, sobre Inglaterra e França.
Estive em férias durante algumas semanas e por isso não tive a oportunidade de acompanhar os últimos posts. Todavia, retornando agora, terei grande prazer por ler os seus últimos artigos. É muito satisfatório observar a sua sempre ótima redação.
Forte abraço.