07 julho, 2007

A língua achada na rua 2

Manuel Bandeira escreveu versos belíssimos como em seu famoso Evocação do Recife. Neste poema há um trecho que parece coroar a tese do professor Marcos Bagno. Parece, mas não coroa. Eis os versos:

(...)
A vida não me chegava pelos jornais e pelos livros
Vinha da boca do povo, na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada

(...)


Manuel Bandeira nesse, como em tantos outros poemas, faz uma reminiscência, lembra de sua infância em Recife. Sua crítica não é à norma culta, como deixa transparecer, mas a uma maneira de falar e escrever que não era a brasileira. Ele não defende a língua dos guetos, mas do povo simples. Não a defende como uma língua que deve substituir a norma culta, mas como uma língua que deve ser ouvida e respeitada. De resto, Manuel Bandeira, apesar de admirar a “língua certa do povo”, como professor de português não abriu mão da norma culta. Usava a língua como uma roupa: formal quando tinha que ser, informal quando era permitido. É isso que a escola tem que fazer. O aluno não precisa mudar a maneira de se comunicar que aprendeu em seu grupo ou em sua comunidade. Ele precisa aprender, se quiser progredir, a norma culta. Se ele se sente à vontade vestindo bermudão e boné, tudo bem, mas precisa aprender também a usar terno.

Mário Quintana, num trecho sobre poesia, escreve: “Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que SÓ TEM CAPACIDADE E MORAL PARA CRIAR UM RITMO LIVRE QUEM FOR CAPAZ DE ESCREEVR UM SONETO CLÁSSICO” Clique aqui

Partindo desse princípio eu diria que quem quiser falar suas gírias, desobedecer às mais comezinhas regras da gramática, só terá autoridade para fazê-lo, se souber falar e escrever na norma culta. Que o professor Marcos Bagno queira enterrar a gramática, tudo bem, mas antes, deve exigir de seus alunos, que serão professores de língua portuguesa, que ensine a gramática aos pupilos, aí sim, podem desancar a inculta e bela.



2 comentários:

PATRICIA M. disse...

Muito bom o texto!

Anônimo disse...

Bacana o texto!!!

Mas devo , apenas, salientar que o prof.Bagno não faz apologia à abolição da gramática, mas valoriza a diversidade linguística, dentre elas, a norma culta.

Um abraço!!!

Amanda