07 julho, 2007

A língua achada na rua 1

A revista Veja que já está disponível para os assinantes na internet, traz uma matéria sobre a UNB e a inicia da seguinte maneira: A Universidade de Brasília é a vanguarda do retrocesso no Brasil” mais adiante arremata: “A UnB é ainda líder nas ações afirmativas em favor dos negros e na estupidez com que as implementa.” Vou dar minha singela contribuição para reforçar essa péssima imagem que a UNB está, de forma tão competente, construindo.

Recebi há alguns dias, a revista Carta Capital na Escola. Não dei atenção às matérias porque tenho mais o que fazer do que ler essa revista. Contudo, assim, quase sem querer, li a última página da revista que traz um pequeno artigo de um tal Marcos Bagno, professor da UNB e segundo a revista, também tradutor e lingüista. O texto é uma mixórdia de esquerdismo bocó da UNB com o método Paulo Freire de enganação. Vamos ao texto:

“Nossa tradição escolar sempre desprezou a língua viva, falada no dia-a-dia, como se fosse toda errada, uma forma corrompida de falar “a língua de Camões”. Havia (e há) a crença forte de que é missão da escola consertar a língua dos alunos, principalmente dos que vêm de grupos sociais desprestigiados, como a maioria dos que freqüentam a escola pública. Com isso, abriu-se um abismo profundo entre a língua (e a cultura) própria dos alunos e a língua (e a cultura) própria da escola, uma instituição comprometida com os valores e ideologias dominantes. Felizmente, nos últimos 20 e poucos anos, essa postura sofreu muitas críticas e cada vez mais é aceita que é preciso levar em conta o saber prévio dos estudantes, sua língua familiar e sua cultura característica, para, a partir daí, ampliar seu repertório lingüístico e cultural”

O professor Marcos Bagno que dá aulas na UNB - engraçado, isso não me surpreende - começa dizendo que nossa tradição escolar despreza a língua viva, aquela do cotidiano, das mesas de bar e das conversas nas esquinas. O que o professor considera uma violência, a saber, a escola ensinar a língua portuguesa aos estudantes, nada mais é que uma obrigação da escola. Não há desprezo pela língua errada do povo - Manuel Bandeira fez um verso belíssimo sobre esse assunto, mas falarei depois - há, quer dizer, já houve, a preocupação de ensinar ao aluno, seja ele de onde for, da periferia ou não, como se deve escrever e falar a norma culta. A escola não castra as gírias, as singularidades dos grupos, ela apenas ensina, quer dizer, ensinava, como escrever e como falar a língua de Camões, de Antônio Vieira, de Eça de Queirós, de Fernando Pessoa e de Machado de Assis.

Em outro trecho, o autor afirma que a escola é uma instituição comprometida com a ideologia das classes dominantes. Esse professor só dá aula na UNB - o que não deixa de ser um bom augúrio, imagina ele dando aulas por aí, já basta ele formando professores para ensinar a "língua achada na rua". Se o ilustre professor, com mestrado na UFPE e doutorado na USP, freqüentasse as escolas públicas e privadas em Brasília e no Brasil, constataria que a ideologia dominante na classe docente, é a ideologia do esquerdismo bocó.

A influência do picareta Paulo Freire fica clara no seguinte trecho: “Felizmente, nos últimos 20 e poucos anos, essa postura sofreu muitas críticas e cada vez mais é aceita que é preciso levar em conta o saber prévio dos estudantes, sua língua familiar e sua cultura característica, para, a partir daí, ampliar seu repertório lingüístico e cultural” Para o professor temos que avaliar o conhecimento prévio do aluno, admitir como válida sua maneira de se expressar e, a partir daí, levá-lo a ampliar seu repertório lingüístico e cultural. É mais ou menos assim: dizemos para o aluno que sua maneira de falar e de escrever são interessantes, até bonitas, mas existe uma outra, que não é melhor, mas que vale a pena saber, afinal é a utilizada nos manuais, a cobrada nos vestibulares e concursos, a que garante uma vaga de emprego e a que estará nos livros se ele, o aluno, decidir prosseguir seus estudos. Assim, convencido de nossas boas intenções, o aluno, sem perder suas idiossincrasias lingüísticas, aprende a norma culta. Ora, ora, se um jovem acostumado a falar de um jeito, assim libertador e incogniscível, aprende que a norma padrão é apenas mais uma, não a fundamental para uma série de coisas, ele ficará com aquela que demandar menor esforço. Não é à toa que tantos alunos foram mal no exame medido pelo Ideb.

outro trecho do artigo:

“Por isso, em vez de reprimir e proibir o uso, na escola, da linguagem dos jovens, há muito mais vantagens em dar espaço para ela em sala de aula, promover algum tipo de trabalho que tenha como objeto essa linguagem. Por exemplo, trazer para a sala de aula a produção escrita ou musical desses jovens – grafites, fanzines, raps - , examinar os traços lingüísticos mais interessantes, os tipos de construção sintática mais freqüentes, a pronúncia, o vocabulário, sem erguer barreiras preconceituosas contra gírias e expressões consideradas “vulgares”. Sugerir atividades lúdicas como “traduzir” um poema clássico para a linguagem dos guetos, das favelas e das periferias.”

A escola não reprime a “língua achada na rua”, antes, é a norma culta, a forma correta de escrever e falar a língua portuguesa que sofre discriminação e preconceito, e pasmem, esse preconceito também vem de professores, muitos de língua portuguesa, quem sabe alunos do senhor Marcos Bagno.

Fico aqui pensando nas aulas de poesia e literatura segundo Marcos Bagno. Versos de hip hop ombreariam com versos de Bandeira, Drummond, João Cabral e Quintana, para ficar em alguns poetas conhecidos. Quem sabe o funk de Tati quebra barraco seja, em termos de língua, tão valiosos, quanto versos de Ferreira Gullar. Essa sugestão do Professor Marcos Bagno chegou até no programa de língua portuguesa do PAS da UNB. Os alunos são obrigados a ler um tal de Meu tio matou um cara, um livro estúpido, que atrapalha a formação do aluno, mas para a UNB é uma maneira de se aproximar do universo do jovem.

Marcos Bagno é mesmo um achado. Segundo ele, os que vivem nos guetos - existe isso no Brasil?- nas favelas e na periferia, não precisam usar a norma culta se não quiserem interessar-se por ela. São todos representantes legítimos do idioma dos explorados. Eu nasci na periferia e sempre desejei aprender a escrever e a falar conforme a norma culta, se eu não consegui, uma parcela é culpa minha, outra, grande, é culpa de professores que não foram tão exigentes comigo. Outra curiosidade que tenho é como seria a “tradução” de um poema clássico para a “língua achada na rua” que Marcos Bagno defende. Prometo fazer o exercício.

o texto dele acaba agora.

“É urgente reconhecer que todas as formas de expressão são válidas e constituem a identidade individual e coletiva dos membros das múltiplas comunidades que compõe nossa sociedade Que a formação do cidadão também passa pela admissão, no convívio social, de todas as formas de falar e de escrever. Que é preciso levar o estudante a se apoderar de recursos lingüísticos mais amplos, para que se possa inserir (se quiser) na cultura letrada, isso não deve passar pela supressão nem pela substituição de outros modos de falar, de amar e de ser.”

A língua é uma roupa. Às vezes é indispensável um traje mais formal; outras vezes, uma sunga é o traje mais adequado. Se todas as formas de expressão são válidas, é forçoso reconhecer que saber usá-las nas ocasiões corretas é indispensável. O que a escola faz, ou deveria fazer, é ensinar a língua achada na gramática, para que naquela festinha black tie, o rapaz e a mocinha não compareçam com roupinhas inadequadas. Será que o departamento de letras da UNB aceitaria um candidato que escrevesse assim: “a parada é a seguinte: vamo mexer umas tretas aí, pra fazer uma paradinha de responsa”. Ou: Voxê é minha amigucha do coraxão. ou ainda: K8rpo
O professor, festejado na UNB, invoca um conceito caro aos esquerdofrênicos que é o multiculturalismo. Desde as mais priscas eras, a língua é um elemento que dá identidade nacional a uma coletividade. Esse pessoal da UNB parece que gosta de guetos, de grupos, detesta universalizar o saber e os direitos.



PS: conheça um pouco sobre Marcos Bagno aqui

3 comentários:

PATRICIA M. disse...

Deprimente o texto do sujeito. Alguem ai ja disse que no Brasil querem nivelar por baixo, nao por cima. Detestavel. Depois teremos de nos contentar em ocuparmos a rabeira do ranking das nacoes do mundo civilizado. Mas acho que esse pessoal nao esta nem ai para isso: interessa a eles que a massa continue tao ignorante e analfabeta como sempre foram, de forma que se perpetuem no poder. E roubem, roubem muito.

Jorge Sobesta disse...

Costajr,

Qualquer semelhança com Pol Pot e o Kmher Vermelho não é mera coincidência. Querem "emburrecer" ainda mais o país.


Grande abraço.

cabeça de ovo disse...

Saudações, Costa Jr.

Vc já parou pra pensar que a tal "festinha black-tie" (utilizada em sua analogia), não é o tipo de "festa" na qual a GRANDE maioria da população brasileira tem (ou terá) a oportunidade de participar? Então, fica a minha pergunta (embasada, aí, nas conclusões de Freire, Alves, Bagno etc): pra quê preocupar-se com essa tal “roupagem lingüística” pra cada ocasião? Sejamos realistas... Quantos dos nossos alunos, hoje formados pela escola pública, desfrutarão das benesses de poder pertencer ao seleto grupo que habita o topo da pirâmide social brasileira? Quantos? É por isso que aquele discurso (neoliberal) de preparar o aluno pro mercado de trabalho, pra economia globalizada etc, realmente me irrita. Como educador - sou formado em Letras e dou aula numa escola estadual -, confesso: não curto muito esse “puritanismo literário” em relação à língua portuguesa. Penso, tal como meus mestres, que o ser humano é muito mais valioso que sua língua, logo, esta não pode ser objeto de divisão ideológica, de discriminação ou de (vã) alavanca social. Na minha modesta opinião, a língua tem uma função apenas: a comunicação.

Vc sabia que, Camões, após sofrer naufrágio, preferiu salvar sua obra à sua companheira? Ela sucumbiu, já seus sonetos estão aí: objeto de idolatria de muitos. No entanto, diz-se que Camões morreu na miséria, completamente abandonado.

Onde está a sabedoria das letras? A quem serve a Norma? Os nossos alunos precisam falar e escrever como um professor Pasquale, um Jorge Amado, um José Sarney, pra ser feliz?

Abraços.