16 junho, 2007

Oh, tempora, oh mores.


Em vários órgãos de imprensa, em muitos blogs, nas conversas de bar e em tantos outros lugares, os brasileiros estão atônitos diante dos descalabros dos políticos. Nossa República está em crise. Uma crise sem precedentes. O dólar baixo e os bons números da economia, escondem um mal que ameaça a alma da nação.

Uma das funções da ciência histórica é alertar aos contemporâneos o que situações semelhantes provocaram em outros tempos. Hoje, se os alunos não estudam história - segundo eles, não lhes interessa o passado - os homens públicos desse país, aqueles que exercem cargos de liderança, também não aprendem com a história.

Não nos custa lembrar o discurso proferido em 63 a C pelo orador romano Marco Túlio Cícero, que desmascarou no senado, o conspirador Catilina. Leiam o trecho e se perguntem se nosso senado tem alguém com tanta coragem.

"Até quando, ó, Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua conduta? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freios? Nem a guarda do palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local, tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto desses Senadores, nada disso conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração todos aqui a conhecem? Quem dentre nós, pensas tu, que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem convocaste, que deliberações foram as tuas? Oh tempos, oh costumes!"

Recomendo a leitura do livro: Roma, democracia impossível, de Norbert Rouland. Ainda que pese certo esquerdismo na obra, o livro nos revela como o desrespeito às leis, a corrupção dos patrícios e o oportunismo de uma nova classe, os cavaleiros, minaram a república romana. Os séculos II e I a C foram pródigos em reproduzir senadores corruptos, generais ambiciosos e eqüestres que buscavam a glória pessoal, não a glória de Roma. Leiam esse trecho do livro, cujo capítulo se chama: A agonia da república.

" No século II a C, um dos personagens de Plauto constatava: "A lei não confere os mesmos direitos ao pobre e ao rico". três séculos mais tarde, a situação havia piorado, pois que Petrônio exclama: "O que pode a lei, onde somente o dinheiro é rei?" Verificamos a importância cada vez maior dos interesses materiais no âmbito militar. Mas a própria sociedade como um todo não escapa a esse fenômeno." Abaixo um discurso de Salústio, outro orador romano do século I a C.

Mas a partir do momento em que, ao custo de esforços e da justiça, a República havia-se constituído (...), a opulência fugiu do controle e passou a corromper tudo (...) Nessas circunstâncias, emergem primeiro a sede do dinheiro, depois a do poder: duas forças, por assim dizer, geradoras de todos os males. Com efeito, diante da cupidez, tanto a lealdade como a probidade e todas as demais virtudes desmoronaram; em seu lugar instalaram-se, como fonte de ensinamento, o orgulho, a crueldade, o menosprezo pelos deuses, a arte de tudo comprar mediante o dinheiro. (...) a cidade alterou-se: o poder, que no princípio era o mais justo e o mais perfeito, passou a ser cruel e intolerável (...) Com efeito, a glória, a honra, o poder constituem aspirações tanto dos bons quanto dos medíocres; contudo, os primeiros escolhem o caminho justo para atingi-los, enquanto os outros, desprovidos de honestidade, empregam o ardil e a mentira no seu esforço de apossar-se deles(...) todo mundo passou a roubar, a valer-se de tudo, alguns a cobiçar uma casa, outros, propriedades rurais, e tudo isso sem qualquer comedimento, sem qualquer discrição por parte dos vencedores, a ignomínia competindo com a crueldade nos tratos criminosos infligidos aos cidadãos."





2 comentários:

PATRICIA M. disse...

Roma!!! Estou ainda esperando pelo nosso Julio Cesar...

Alea jacta est, cruzando o Rubicao e botando a corja para correr, para beeeem longe.

Blogildo disse...

O primeiro século AC foi o mais estranho para Roma. Deixou de ser uma república democrática para ser o império.
Infelizmente, o Brasil não é democracia e nunca será império.