15 abril, 2007

Corrupção é frieira.




—— Severino, retirante,
o mar de nossa conversa
precisa ser combatido,
sempre, de qualquer maneira,
porque senão ele alarga
e devasta a terra inteira.

—— Seu José, mestre carpina,
e em que nos faz diferença
que como frieira se alastre,
ou como rio na cheia,
se acabamos naufragados
num braço do mar miséria?

(Morte e Vida Severina, João cabral de Melo Neto)

Frieira, para quem não sabe, é a velha micose causada por diversos fungos e que sem um tratamento rápido e adequado, espalha-se rapidamente por entre os dedos, geralmente dos pés, causando coceira e feridas na região atingida. A Corrupção é uma frieira que acomete, de uma forma ou de outra, muitos brasileiros, sobretudo aqueles que lidam com os recursos públicos. Vamos ao caso.

O Correio Braziliense deste domingo traz uma matéria sobre uma mega-fraude na Assembléia Legislativa do Distrito Federal. Se você leitor pensa de que se trata de mais uma das inúmeras falcatruas de deputados, dessa vez se enganou. Os ladrões de nosso dinheiro, nesse caso, não foram eleitos, muitos passaram em concurso ou foram nomeados para cargos de confiança. São os funcionários da Câmara Legislativa.

A fraude.

Os funcionários da Assembléia têm direito ao que eles chamam de “auxílio pré-escolar” que se trata de uma ajuda no valor de R$428,37 por criança com idade de até 6 anos para gastos com educação. Não vou nem tocar no fato de que muitos desses funcionários recebem um salário muito acima da média da iniciativa privada o que tornou o concurso para a Câmara, ano passado, um dos mais concorridos do Brasil. Prossigamos: muitos funcionários fraudavam as informações sobre filhos ou dependentes para engordarem os próprios salários. A Assembléia do DF fazia vista grossa às irregularidades, tudo para que todos tivessem o seu quinhão na corrupção. Um, por exemplo, declarou ter 10 dependentes com idade de até 6 anos, engordando em 4 mil reais o seu salário. Além do crime de peculato, esses funcionários também cometeram crime de sonegação e de falsidade ideológica. Para dar um ar de legalidade ao roubo de recursos públicos, muitos desses bandidos que desfilam em Brasília com seus carros de luxo e moram nos lugares mais caros da cidade, declararam ao Fisco dependentes que não têm ou nunca tiveram. Filhos de empregados, parentes distantes, crianças fantasmas, eram relacionadas como dependentes do funcionário para ele roubar o nosso dinheiro.

As desculpas.

Curiosas foram as desculpas dos envolvidos no escândalo. A maioria, conforme noticia a matéria, diz que cometeu a fraude porque os outros funcionários recomendavam. É mais ou menos assim: os deputados roubam, nós roubamos, e você, Mané? Vai ficar dando uma de honesto? Como nesse país ninguém quer ser chamado de otário por ser honesto, lá iam eles, roubar também.

O diretor do sindicato do poder legislativo do DF e do TCU do DF, Valquírio Cavalcante, que em tese deveria zelar pelos direitos dos funcionários, decidiu, na mesma moral, locupletar-se também. Colocou como dependentes filhos de um sobrinho que sequer moravam em sua casa, apenas para aumentar o já gordo salário.Como justificativa ele declarou à sindicância aberta na Câmara para apurar a fraude: “Fiquei sabendo que não haveria problema de pôr os filhos do meu sobrinho como dependentes, por isso coloquei”. Mais cínico impossível.

O chefe da área de benefício da Assembléia, Júlio Eduardo Lassance de Albuquerque, que concede o auxílio e recebe a documentação exigida para liberar a mamata, justificou a vista grossa de sua área dizendo que a lei confere a presunção de inocência e de veracidade das informações dadas pelos cidadãos. Homem correto, esse Júlio. Sabia, porque nos corredores da Câmara todo mundo sabia da fraude, mas ele, de forma omissa, acreditava nos bandidos porque a lei, a priori, considera todos inocentes.

Conclusão

Pois bem, assim como a frieira, a corrupção se alastra na esfera pública. Roubar dinheiro público não é privilégio dos ocupantes de cargos eletivos. Os funcionários públicos acham natural receber indevidamente, fraudando documentos e mentindo descaradamente, apenas para aumentar o próprio salário. Casos como esse me enojam e me tiram a esperança de que algum dia seremos decentes com o dinheiro público. A velha máxima de Rui Barbosa continua valendo: é tanto roubo, cinismo, desfaçatez, que o homem honesto passa a ter vergonha de sê-lo.

3 comentários:

PATRICIA M. disse...

Costa, voce pegou muito leve. Nao eh frieira nao. Eh cancro dos feios, se alastrando rapidamente, contaminando celulas saudaveis... Triste a situacao.

Anônimo disse...

Olá, gostaria de fazer uma pequena ressalta que não tem tanta importância para o valor do texto: aqui no DF, temos uma Câmara Legislativa, que seria um misto entre Câmara Municipal e Assembléia Legistiva.

Abs,

Márcio.

Anônimo disse...

O ser humano é um ser imperfeito, tenta a todo custo melhorar a cada dia, mas que às vezes erra e deve pagar pelo erro cometido, disso não resta dúvida e nesse momento tudo que ele fez de bom é esquecido e o mesmo passa a se tornar alvo de execrações públicas, mesmo tendo sendo punido na esfera administrativa, civil e penal o seu nome permanecerá para sempre nos blogs da vergonha...A de salientar que a legislação brasileira veta a pena perpétua....Pensem nisso....Um dos que cometeu esse deslize....