04 fevereiro, 2007

Série carnaval



Quando me dei por gente em Recife vivi uma fase em que o Axé Music era uma febre. Os trios e os grupos baianos faziam um estrondoso sucesso comercial pelo país. As letras erotizadas e a coreografia dos grupos que simulavam relações sexuais, caíam no gosto das massas e da elite e invadiam programas de auditório e até programas infatis. Muitos pais viam com graça sua filhas de 4 ou5 anos dançarem na boquinha da garrafa do grupo É O TCHAN que projetou as curvas de Carla Perez, Sheila Carvalho e Sheila Melo.

falava-se à época que o frevo de Recife era uma música velha, ultrapassada e que não mais seduzia os jovens que preferiam o erotismo do axé ao ritmo frenético do frevo. Quem é de Pernambuco sabe o que sente quando escuta os primeiros acordes de Vassourinhas, um sucesso de mais de 60 anos. E aqui está a primeira grande diferença, para o bem ou para o mal, entre o frevo e o axé. Os frevos talvez não rendam hoje dinheiro para artistas e gravadoras, mas ficam na memória do folião e torna-se um elemento de identidade regional. O axé, pelo sucesso que fez e ainda faz, traz retorno financeiro, mas alguém lembra do grande último sucesso do axé? lembra a letra da Dança da Rodinha de Sarajane?

Se hoje o frevo se regionalizou, isto é, ficou cada vez mais restrito a Pernambuco e ao Carnaval, nem sempre foi assim. Nas décadas de 30, 40 e 50, mas também em 60 e 70, o frevo influenciou muitos artistas brasileiros de peso, como Tom Jobim, Chico Buarque, Vinicius de Moraes e baianos como Gal Costa, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Leiam esse trecho abaixo:

"O gênero esfuziante sensibilizou mesmo a intimista bossa nova. De Tom Jobim e Vinicius de Moraes (Frevo) a Marcos e Paulo Sérgio Valle (Pelas Ruas do Recife) e Edu Lobo (No Cordão da Saideira) todos investiram no (com)passo acelerado que também contagiou Gilberto Gil a munir de guitarras seu Frevo Rasgado em plena erupção tropicalista.
A baiana Gal Costa misturou frevo, dobrado e tintura funk (do arranjador Lincoln Olivetti) num de seus maiores sucessos, Festa do Interior (Moraes Moreira/Abel Silva) e a safra nordestina posterior não deixou a sombrinha cair. O pernambucano Carlos Fernando, autor do explosivo Banho de Cheiro, sucesso da paraibana Elba Ramalho, organizou uma série de discos intitulada Asas da América a partir do começo dos 1980.
Botou uma seleção de estrelas para frevar: de Chico Buarque, Alcione, Lulu Santos e Gilberto Gil a Jackson do Pandeiro, Elba e Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Fagner e Alceu Valença. Entre os citados, Alceu, Zé e Geraldo mais o Quinteto Violado, Lenine, o armorial Antônio Nóbrega e autores como J. Michiles, mantêm no ponto de fervura o frevo pernambucano. Mesmo competindo com os decibéis – e o poder de sedução – do congênere baiano."



Porque é carnaval, Antônio Maria:



Frevo nº 1 do Recife



Ô ô ô ô saudade
Saudade tão grande
Saudade que eu sinto
Do Clube das Pás, do Vassouras
Passistas traçando tesouras
Nas ruas repletas de lá
Batidas de bumbos
São maracatus retardados
Chegando à cidade, cansados,
Com seus estandartes no ar.

Não adianta se o Recife está longe
E a saudade é tão grande
Que eu até me embaraço
Parece que eu vejo
Valfrido Cebola no passo
Haroldo Fatia, Colaço
Recife está perto de mim.


Frevo nº 2 do Recife


Ai que saudade tenho do meu Recife
Da minha gente que ficou por lá
Quando eu pensava, chorava, falava
Contava vantagem, marcava viagem
Mas não resolvia se ia
Vou-me embora
Vou-me embora
Vou-me embora pra lá

Mas tem que ser depressa
Tem que ser pra já
Eu quero sem demora
O que ficou por lá
Vou ver a Rua Nova,Imperatriz, Imperador
Vou ver, se possível
Meu amor.


Frevo nº 3 do Recife


Sou do Recife com orgulho e com saudade
Sou do Recife com vontade de chorar
O rio passa levando barcaça pro alto mar
E em mim não passa essa vontade de voltar

Recife mandou me chamar

Capiba e Zumba a essa hora onde é que estão
Inês e Rosa em que reinado reinarão
Ascenso me mande um cartão
Rua antiga da Harmonia

Da Amizade, da Saudade, da União
São lembranças noite e dia
Nelson Ferreira toque aquela introdução.

6 comentários:

Anônimo disse...

Sou paulista, já fui a Recife, é uma cidade linda, e eu acho o frevo maravilhoso, ele realmente impele o corpo da gente a se mexer. Eu babo quando vejo dança de frevo.

david disse...

A diferença essencial é cultural: Enquanto o frevo mantém intactas suas raízes populares, o axé faz o (péssimo) comercial.
Por mim, esse porno-carnaval da bahia deveria ser proibido. Como o do Rio e de SP também.
Me deixa boquiaberto nossas mulheres sentirem-se ultrajadas com a idéia externa, de que mulheres brasileiras são todas prostitutas. Não gostam? Então façam de tudo para acabar com desnudas nas passarelas. Que se acabe de uma vez com essa (me desculpe a palavra, mas é a que melhor qualifica) putaria que se tornou o carnaval

Cejunior disse...

CostaJr,não conheço pessoalmente o carnaval de Recife e Olinda, o que não me impede de gostar e respeitar o frevo, legítima manifestação cultural.
Sua série é importante por falar exatamente num ritmo que vem sendo sufocado pela Axé e pode até ser esquecido.
E a propósito, postei hoje lá no Cejunior um link para cá. Ouvir esses frevos é tudo de bom!
Abraços.

Patricia M. disse...

Costa, detesto axe. Acho de um mau gosto tremendo. E sou do tempo em que carnaval era pulado em clube, ao som de musicas mais antigas... E a gente ainda colocava fantasia, mesmo se nao fosse crianca. Fantasia discreta, como um marujo inocente... E jogava confete e serpentina... Nao sou desse tempo nao, do porno-carnaval. Mas nao dizem que tudo abaixo do Equador eh permitido.......? Estamos aqui para comprovar, infelizmente.

luciana disse...

Eu peço que me perdoe a ignorancia... estu com uma duvida que quero esclarecer, se puderem ajuda... a musica:" ... não sai da minha vida! não vou sobreviver sem você..." garvada recentemente por Jorge e Mateus com participação de Alexandre peixe; esta musica é no ritmo de frevo, não é?!?
não é axé! é frevo , não é?!

Prof. Zé Paulo disse...

É axé, Luciana! É um Chiclete com Banana com sotaque caipira. Passa longe do frevo.