05 janeiro, 2007

Liberdade e Independêcia. Sem isso, a morte!

"Pode um deputado pronunciar um discurso, mas o fato de poder proferi-lo não quer dizer que a Câmara a que pertence é solidária com os conceitos que emitiu. Simplesmente significa que a Câmara existe, que é um poder independente e que garante a seus membros a liberdade de palavras e opiniões."
Márcio Moreira Alves

Convocado para uma “blogagem” coletiva sobre a disputa da presidência da Câmara Federal, apresento nesse post minhas armas. Sei que são armas frágeis, débeis e com poder de destruição nulo, antes assim, não tenho pretensões maiores do que a de acordar a cada dia respirando.

Curiosamente, e aqui vai um quê de superstição, havia sonhado um sonho daqueles em que a gente sonha e baba na fronha... pois bem, no sonho, estava eu ouvindo o excelentíssimo senhor Jarbas Passarinho sobre o AI 5. Na minha vez de perguntar a ele, o despertador tocou e eu fiquei sem a pergunta.

Esse sonho me fez voltar ao ano de 1968, ano cheio de simbolismos, ao menos para mim. Naquele ano o governo Costa e Silva enfrentava uma dura e crescente oposição do meio artístico, dos estudantes e da sociedade civil organizada. A situação estava crítica, todos os nervos, principalmente dos militares da Linha Dura, estavam à flor da pele, e então vem um discurso desconcertante do deputado Márcio Moreira Alves que conclamou a sociedade a boicotar a parada de 7 de Setembro e ainda por cima fez um apelo jocoso, que os militares encararam como um insulto, de que as mulheres dos militares parassem de “namorar” seus maridos.

O ministro da Justiça pediu ao parlamento uma licença para processar o deputado. A Câmara, que vivia refém do poder executivo, deveria dar uma resposta rápida a essa solicitação que naquele contexto era mais que um simples pedido, era uma ordem!

Em momentos de crise a altivez impera, pelo menos deveria. Em 12 de dezembro de 1968 o deputado Márcio Moreira Alves, pivô da crise entre o Executivo e o Legislativo, profere um discurso histórico (leia aqui) e nesse discurso mais do que se defender ele defende a LIBERDADE e a INDEPENDÊNCIA do Poder Legislativo. Eram tempos duros, de prisões, torturas e assassinatos, e mesmo assim, numa decisão que deveria orgulhar a Câmara Federal, os deputados enfrentam o Poder Executivo e NEGAM a licença para processar o deputado.

O que essa história tem a ver com a disputa da Câmara? Apenas, meus queridos 11 leitores, que independente de quem vença essa disputa, Aldo Rebelo ou Arlindo Chinaglia, ambos serão submissos à vontade do presidente Lula e isso em plena democracia. Ambos trocarão a altivez de um poder livre e independente, por um poder que diz amém aos desmandos do executivo. Assim nosso parlamento transformar-se-á em mero Colégio Eleitoral do governo. Um candidato independente, que esbraveje contra o agrilhoamento do poder legislativo, pode até mobilizar a opinião pública e os formadores de opinião (e como seria bom que assim se desse), mas será incapaz de vencer o fisiologismo, a insensatez e a cupidez dos deputados alinhados ao governo Lula.

Assistiremos ainda uma vez um parlamento miúdo, de deputados miúdos, que não têm e nem terão dimensão histórica suficiente para entender que foram necessárias revoluções em que muitos perderam a vida, para que ele, o poder legislativo, enfrentasse com altivez o poder despótico dos reis e fosse um dos mais importantes pilares da democracia, desde que exercido com LIBERDADE E INDEPENDÊNCIA!

7 comentários:

Suzy Tude disse...

CostaJr, quanto tenho de aprender com você!
De qualquer forma já vi que você está apoiando nossa idéia...claro que tudo não vai mudar, mas podemos chacoalhar um pouco essa oposição inexistente e esses gestos autoritários de lula e sua turma.
Esse movimento é de todos nós e não pode terminar por aqui. Estive conversando com outros blogueiros e passo os detalhes assim que os tiver, a você.
Grande abraço da sua eterna fã

Anônimo disse...

CostaJr, recebi o pedido da Suzy e me coloquei à disposição. Inclusive postei um artigo do Gabeira sobre esse assunto, uma articulação para tornar viável uma terceira via.
Vamos ver no que vai dar.
Abraços.

Anônimo disse...

Zé...estou indo pela mesma linha de pensamento.

O puder hoje é tal, que nem oposição há.

Independe de quem entrar, o cabresto será o mesmo.

andre wernner disse...

Caríssimo patriota CostaJr.,
Neste momento a blogoesfera rende suas homenagens a você, por tão expressivo artigo-documento, que não apenas comenta, mas levanta a história e a luta de segmentos da sociedade do passado recente, que fizeram valer os direitos individuais e a liberdade de expressão.
A busca da manutenção da independência dos Poderes, na República, não é apenas uma necessidade de ocasião, mas uma observância permanente para que a democracia aprofunde às suas raízes.
Portanto, um candidato de oposição aos que aí estão correndo soltos é fundamental para determinar que, apesar dos pesares, ainda existe oposição em sentinela no país e que buscará evitar que a Câmara dos Deputados venha a se tornar refém do Executivo.
Se a Câmara se render ao canto da sereia palaciano, estará perdendo a sua independência - como poder constituído - e representatividade junto ao eleitorado. Sem oposição, será uma gestão do AMÉM!
Portanto, aos 40 MILHÕES DE ELEITORES que votaram contra o governa está na hora se mexer e mostrar a sua força!
Abs

Saramar disse...

CostaJr, boa tarde.
Ainda não conhecia seu blog e estou tendo esse prazer agora, graças a uma indicação da Suzy.
Seu texto é impecável! Parabéns.
Tocou no ponto mais importante desse assunto, que ultrapassa a mediocridade e venalidade do atual congresso, ou seja, a própria essência do poder legislativo.
Irei postar sobre o assunto, não com essa propriedade (quem sou eu). Estou querendo o Gabeira.
Voltarei para ler e aprender mais por aqui.
Obrigada.

beijos

Anônimo disse...

Meu amigo, novamente me honro de ser sua assídua leitora.
Se somos apenas 11, isso me eleva ao patamar da Hiper Elite (elite cujo significado cosnta no Aurélio, não a deturpada pela falta de conhecimento dos ptralhas).
Seu poder de dissertar brilhantemente sobre qualquer assunto, me fascina e aqui enriqueço meus conhecimentos.
Como não poderia deixar de ser, concordo com vc, e só nos resta nos unir e tentar nos multiplicar para q todos sejam lidos e assimilados pq todos são importantes nesse momento de abandono, q vc tão bem descreve.
Enquanto não aparece o Messias, vamos sair por aí divulgando nossas indignações.
Parabéns e um grande abraço.
Muito obrigada por sua visita e comentário.
SôniaSSRJ

Ricardo Rayol disse...

Se Jesus Cristo, nosso senhor, amém, fosse eleito presidente daquele chiqueiro iria se corromper