16 dezembro, 2006

Você é um ET? Desconfio que eu sou...

Ando um tanto preocupado com algumas bobagens. O que será de nossa Língua Portuguesa nos anos vindouros? Numa dessas quintas-feiras em Brasíla, de céu cinzento, mormaço e chuvas no fim da tarde, fui provocado por uma professora de português que me alfinetou nos seguintes termos: “reduzir a língua portuguesa a uma mera questão de vocabulário é o fim!” Ela é professora de português, eu sou apenas alguém que tem a pretensão de usar a língua com certo esmero. Muitos, e não é de hoje, reclamam de que uso palavras pouco usuais. Fico preocupado porque quando estudava, meus professores de português, na época em que professores de português valorizavam o vocabulário dos seus alunos, obrigavam-me a sempre procurar o significado de palavras que não conhecia. Uma vez construído o hábito e com algumas poucas leituras, adquiri, aqui e ali, em certo vocabulário que muitos, com gentileza, dizem ser rebuscado; outros, sem disfarçar a insatisfação, pedante. E assim prossigo, incompreendido por muitos e tolerado por poucos.

Outro dia, numa das escolas que dou aula, um amigo, desses que tem a arte de nos fazer rir mesmo quando não tem a intenção, disse que à noite, ao invés de eu ler a Bíblia, leio o dicionário. Outro chegou a afirmar que ao dar aula eu deveria levar uma legenda para os alunos entenderem alguns termos que uso. Diante disso, às vezes me sinto sim, um ET, um tripulante de uma nave espacial de um planeta longínquo.

Talvez, meus queridos 11 leitores, perdi alguns, vocês estejam agora aí, sentados, em frente ao micro, pensando o seguinte: ele se acha. Está todo ancho, dizendo que domina um vocabulário amplo. Antes de vocês me julgarem tão mal, muitos fazem isso não se preocupem, saibam que sou um neófito em nossa Língua Portuguesa. Sei tão pouco sobre ela, aprendo com muito esforço, para tentar compensar uma certa tibieza literária, algumas regras gramaticais. Por isso, incomoda-me o fato de saber que existem profissionais da Língua que, ou a menoscabam, ou acreditam que o vocabulário, sei lá, tem uma importância lateral.

Outro dia, numa aula para a 7ª série, usei o termo obsoleto. Os meninos me olharam com aquele ar de estudante que não entendeu patavina, mas tem certos pudores de admitir a incompreensão. Expliquei para eles o termo e fiz uma brincadeira: na hora do jantar, disse, quando a família estiver reunida, seja na mesa, seja no sofá da sala, porque para algumas famílias a TV é uma convidada de honra na hora das refeições, encontrem uma maneira de usar o termo obsoleto, como por exemplo: “Papai meu PC está obsoleto!”

Saber ou não essas palavras fará diferença na vida dos alunos? Talvez não faça a menor diferença. Mas também aprender Equação do Segundo Grau faça menos ainda. Aliás, aprender qualquer coisa com alguma finalidade pode até ser útil, mas é chato. Os gregos criaram o termo thauma para indicar o espanto que todos sentem diante de descoberta de algo que se ignora. Para os gregos, saber, pelo simples fato de deixar de ser ignorante, era o que importava. Hoje em dia, nossos jovens de classe média alta sabem se comunicar em inglês, mas não sabem a diferença entre eminência e iminência.

2 comentários:

Anônimo disse...

Tem razão... e pode ser pior ainda. Já viu como essa garotada escreve no MSN, chats e afins ? É uma outra língua!

David disse...

VoXê PeNxA AxIm MeXmO, MiGuXo?