22 dezembro, 2006

Um conto...

Não sei se vai dar certo, é apenas um exercício, mas vou tentar. Abaixo está um pequeno conto que escrevi tem dois anos. Desçam a lenha se não gostarem, mas comentem.

APENAS UM ENCONTRO.

Luís caminhava atônito pelas ruas alagadas do centro do Recife. Pensava unicamente na prova que faria horas mais tarde na faculdade. Uma porção de livros nas mãos que inutilmente ele tentava proteger da chuva. Na ânsia de alcançar o ponto do ônibus o pior aconteceu: atarantado e displicente, Lula esbarrou noutra pessoa, os livros que mal se equilibravam em suas mãos, caíram todos numa poça d’água. A menina constrangida mas ao mesmo tempo ciente de sua inocência tentou ajudá-lo, mas Luís um tanto ríspido dispensou a sua ajuda, recolheu os livros e seguiu o seu caminho.

Às 19:00 horas Luís já estava na sala de aula para fazer a prova. Era uma prova de cálculo e quem já precisou pagar essa cadeira na faculdade sabe muito bem o que Lula estava passando momentos antes de começar o exame. Às 19:15 todos que fariam a prova estavam na sala, mas o professor ainda não havia chegado, o que aumentava o nervosismo de todos. Havia aqueles que argumentavam que a prova seria adiada, o desejo da maioria aplaudiu essa análise, afinal de contas o professor de Cálculo não costumava atrasar, algo tinha acontecido e ele não poderia vir.


O professor realmente não veio, mas para não frustrar as expectativas dos alunos, designou uma aluna do mestrado para aplicar a prova, pelo menos foi o que disse a tal aluna, que se apresentou como Júlia. É evidente que a turma achou a solução ruim, mas não havia como fugir da realidade, a prova teria de ser feita. Luís tinha motivos maiores para estar incomodado. Tem dias que levantar da cama é o principal de todos os erros. Júlia logo reconheceu Luís e com um sorriso enigmático aproximou-se dele, entregou a prova e perguntou se os livros tinham secado. Luís, que já havia reconhecido intimamente que fora desnecessariamente ríspido com a moça que ele esbarrou e que estava ali como para exigir desculpas, não respondeu. Pegou a prova baixou a cabeça e começou a resolver as duas questões.


Extremamente concentrado na prova nosso amigo perdeu a noção do tempo e das pessoas que estavam na sala, quando deu por si, era o único fazendo a prova. Júlia, pacientemente, esperava Luís concluir as qustões. Próximo a acabar o tempo da prova ele levantou-se, dirigiu-se a Júlia e disse: “os livros não ficaram tão molhados” e entregou a prova. Júlia, com um ar cansado, deu um sorriso daqueles que só se percebe porque seus olhos ficaram um pouco mais apertados. Luís ficou incomodado com o silêncio dela e foi embora. Na metade do corredor considerou que talvez fosse necessário desculpar-se de forma mais explícita, tentar ser gentil e chamá-la para comer alguma coisa. Voltou. Ao entrar na sala seu intento precisou ser modificado. Júlia estava num desses beijos apaixonados com o seu namorado, foi ele quem percebeu a presença de Luís.


Você que está me lendo agora sabe o que é dar um branco? De repente perder a capacidade de falar? E saber que ficar calado é mais esquisito ainda? Pois é, Luís emudeceu. Maldita idéia essa a de voltar. Ele nem conhecia aquela moça, por que desculpar-se com alguém que provavelmente não veria de novo? Foi Júlia que quebrou o silêncio:

---- Esqueceu alguma coisa? Perguntou um pouco inibida.

---- Na verdade eu queria saber... se... , ele estava tentando criar uma pergunta naquele instante, o professor Macedo virá na próxima aula? Ufa ! ele conseguiu.

---- A semana que vem não será a da festa de São João? Não terá aula.

Luís quase desaba de remorso. Não bastasse a idéia infeliz que teve, fez uma pergunta completamente sem sentido. Já era tradição na faculdade a festa de São João, ela acontecia ha mais de dez anos e nunca havia aula nesse período. Ele fez um gesto como se tivesse lembrado desse fato naquele instante, virou-se e foi embora.

O São João desse ano cairia numa quarta-feira, mas a festa na faculdade seria numa segunda-feira. Essa festa era um momento de confraternização de alunos, professores e funcionários, mas a presença dos alunos era hegemônica, o que transformava a festa numa espécie de calourada. Fogueira, trio de forró, comidas típicas e muita bebida animavam os convivas. O arraial construído estava tomado, quase não se podia andar. A animação estava contagiante, até mesmo Luís, pouco afeito a festas sorria sem reservas com as estórias pouco críveis de Dudu, colega de sala. Dudu era uma dessas figuras cujo passatempo preferido é deixar pessoas como Luís, constrangida. Quase sempre Luís se incomodava, mas nessa festa, surpreendentemente ignorava as brincadeiras de Dudu. Numa última tentativa de tirar seu amigo do sério, Dudu perguntou em tom jocoso:

---- E aí Lula, vai assistir aula de Macedo hoje? E caiu na gargalhada como se estivesse presente à cena constrangedora vivida por seu amigo.

---- Dudu esse assunto vai render até quando? Eu sei que eu falei besteira, que não deveria ter voltado, mas agora é tarde. Luís sabia que não evitaria as brincadeiras de Dudu e reconhecia o erro que cometera.

---- Mas você não acha, e agora Dudu falava alto para que outros colegas que não estavam atentos à conversa prestassem atenção - para Dudu quanto mais público melhor - que chamar a assistente do professor para sair e quem sabe talvez seduzi-la, e assim garantir uma boa nota na prova, não foi um pouco de fantasia de sua parte? E mais, prestem atenção, falava Dudu ciente da audiência que conquistara, a linda moça estava no maior amasso na sala de aula. Moral da História: Não há como evitar uma nota ruim em cálculo, nem estudando, muito menos seduzindo a assistente do professor. Todos riram mais das pantomimas feitas por Dudu para narrar sua versão dos fatos do que propriamente dos fatos. Lula sempre se arrependia de contar as coisas para Dudu, mas ele no fundo era um bom amigo, só não desperdiçava uma oportunidade de chamar a atenção.

---- Esse era o seu plano Luís? Tentar me seduzir? Todos ficaram calados. Por coincidência até o trio parou o som para descansar um pouco. O coração de Luís gelou, Dudu não sabia o que dizer, pediu licença e foi embora. Os colegas foram se afastando um a um , ficou apenas Luís e Júlia. Ela repetiu a pergunta, talvez porque o nervosismo de Lula pudesse fazê-lo esquecer o que foi perguntado.

---- Júlia, você não conhece o Dudu, ele cria do nada estórias fantásticas, devia fazer Letras e não engenharia. Eu voltei porque queria me desculpar por não ter aceitado a sua ajuda naquela tarde, afinal de contas a culpa foi minha. Como eu estava com fome iria convidá-la, se você quisesse é claro, a fazer um lanche comigo, o resto é imaginação do Dudu. Luís estava espantado. Não tremeu a voz, disse toda a verdade e não estava parecendo um idiota como da outra vez.

---- Está bem eu acredito em você. Gostaria de dançar comigo? Adoro essa música - o trio voltou a tocar, mas dessa vez um forró mais autêntico, a música era Sala de Reboco. Foram dançar.

O que pode estar passando na sua cabeça leitor eu posso até imaginar, mas o que passava pela cabeça de Luís nem ele sabia. Péssimo dançarino, ele nunca aceitava um convite daquele, e de repente estava ali, dançando com uma menina que nas últimas duas semanas tropeçava em sua vida. Dançaram três músicas e pararam, talvez Júlia tenha cansado das pisadas no pé que Luís lhe dava. Conversaram a festa toda, ele mais à vontade falava de seus planos na faculdade, ela ouvia paciente e também falava de sua dissertação de mestrado. Um pergunta no entanto, estava se impondo. Luís tentava evitá-la, mas ela sempre voltava à sua cabeça. Decidiu fazê-la e começou meio reticente.

---- Posso te fazer uma pergunta meio esquisita?

---- Onde está o meu namorado? Disse Júlia adivinhando a pergunta e provando que já a esperava

--- Não! Falou tentando disfarçar, era se naquele dia ele ficou chateado com a pergunta idiota que eu fiz? Luís havia mudado a pergunta, mas mantido o objetivo.

---- Acho que não. Não comentou nada a respeito. Ele precisou viajar a São Paulo, a empresa que ele trabalha está oferecendo um curso em processamentos de dados e ele foi fazer. Luís eu preciso ir, obrigado pela dança e pela companhia.

---- Não esqueça de pôr gelo nos pés quando chegar em casa, eles te agradecerão, falou Luís tentando dizer algo engraçado. Despediram-se. E Luís guardou aquele rosto pelo resto da vida.

2 comentários:

evandrops disse...

Desejo a você um lindo Natal, cheio de paz!
Que Deus te ajude, e que 2007 seja um ano muito produtivo, e que os blogs ganhem ainda mais força!

Abração

Anônimo disse...

Viu? Nem doeu!
E não é ruim não, oras.

Zé, boas festas a você e família.

Um abraço.

PS: Tô por aí.