08 dezembro, 2006

Meu Discurso

Os amigos da blogosfera andam reclamando de minha ausência, mas os motivos existem. Um deles diz respeito às festividades de colação de grau de uma turma do 3º Ano de Ensino Médio. Abaixo vou postar o discurso que proferi como Paraninfo dessa turma.

Meus Queridos e Minhas queridas!

Antes de tudo quero agradecer a cada um de vocês por terem confiado a mim a tarefa de pronunciar essas palavras. Sei que ao me confiarem essa tarefa, estavam na verdade encontrando uma maneira de me homenagear, por isso, obrigado.

Quero relembrar nesse momento um pequeno trecho do livro o Ateneu de Raul Pompéia, quando o personagem Sérgio se dirige à escola junto com seu pai, e à porta do Ateneu, o pai de Sérgio pronuncia a seguinte frase: “Vais encontrar o mundo meu filho”. O “mundo” tanto para Sérgio quanto para seu pai, naquele contexto, era o Ateneu, uma famosa escola do Rio de Janeiro. Antes de “conhecer” esse “mundo”, Sérgio o imaginava maravilhoso, organizado, justo, pleno de valores morais, como: decência, honestidade, lealdade, sinceridade. Todavia, meus queridos e minhas queridas, o Ateneu estava longe de ser o mundo da imaginação de Sérgio. Logo nos primeiros meses ele descobriu com espanto, com horror e em alguns casos, experimentando dor física e moral, que aquele “mundo” estava bem longe do Paraíso que ele imaginava. Professores maus, colegas desumanos que ridicularizavam os mais fracos, alunos desonestos que burlavam as normas, o diretor, o sr. Aristarco, homem ranzinza, falso e interesseiro que em segundos era capaz dos maiores elogios a um aluno na frente de seus pais e logo em seguida desferia contra esse mesmo aluno toda sorte de impropérios que denegriam e humilhavam. Por que falo do Ateneu? Por que recorro a esse romance pouco conhecido de nossa escola realista? Apenas para fazer uma paráfrase. Hoje cada um de vocês, acompanhado dos pais ou dos responsáveis não estão à porta do Ateneu para entrar, mas para sair. E com muito mais propriedade do que o pai de Sérgio, digo: vocês vão encontrar o mundo, meus queridos!

Talvez vocês estejam pensando: Não imaginamos que o mundo a que estamos prestes a descortinar, na universidade ou no trabalho, seja o mundo de maravilha, que sempre sorrirá para nós. É verdade, as coisas ultimamente andam tão toscas que esse tipo de fantasia já não povoa a imaginação de jovens como vocês. Contudo, nessa noite, quero dizer que embora o mundo seja muitas vezes injusto; é nele que vivemos! E embora as vicissitudes da vida ameacem nosso destino de felicidade, nada nos impedirá de realizar as coisas que sonhamos enquanto acreditarmos que podemos realizá-las. Na obra do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina, Severino está conversando em um mangue com um antigo retirante, Seu José Mestre Carpina. Desiludido, com as forças combalidas, ele, Severino, questiona se tudo o que sofreu do sertão ao litoral, valeu a pena. Obtém como resposta os seguintes versos: “Severino, retirante/ Muita diferença faz/ entre lutar com as mãos/ e abandoná-las para trás” O que pretendi dizer meus queridos, é que enquanto mantivermos a disposição para lutar, a perseverança em nossos sonhos, a coragem para nos levantarmos quando cairmos, nada, nem a injustiça do mundo, nem a maldade das pessoas, serão suficientes para abalarem nosso ânimo, nossa crença em dias melhores, nossa certeza de realizar os sonhos.

Finalmente, quero concluir essas palavras, não dando um conselho, mas fazendo um apelo: Em tempos de cinismo, desfaçatez, em tempos de mentiras sendo ditas como se fossem verdades mais puras, onde, como disse Rui Barbosa ao perder as eleições de 1919, De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.” Mesmo diante de um quadro dessa natureza eu faço esse apelo: não caiam nessa vala fétida e desonrosa que infelizmente tem atraído tanta gente.

Levem para esse mundo que vocês estão entrando agora, os altos valores. Se a maioria é cínica, mostrem a sinceridade com gentileza. Se a maioria é fútil, mostrem a profundidade de seus valores sem arrogância. Se a maioria mente, escamoteia, façam da verdade e da transparência suas mais marcantes características.

Antes de acabar, peço licença para homenagear nessa noite os verdadeiros heróis dessa vitória que estamos celebrando: seus pais! Senhores pais, recebam de nós as maiores homenagens dessa noite. Foram os senhores que conduziram seus filhos ainda pequenos a escola, que nunca duvidaram da competência deles, ainda que eles, talvez, nunca tenham escutado isso dos senhores. Hoje vocês testemunham o coroamento dessa vitória, experimentam, penso, uma grande satisfação, ao ver o filho, a filha, concluindo mais essa etapa da vida. Não há como não pensar: Foi difícil, houve atropelos, mas perseveramos, não desistimos e colhemos hoje o fruto dessa persistência, com a certeza que outros frutos, ainda mais saborosos, serão colhidos.

(Abaixo postei a música que encerrou meu discurso. Para ouvi-la é só clicar no primeiro botão)

Obrigado.




4 comentários:

Anônimo disse...

B R A V OOOOOOOOOOOOOOOOO !!!

VOLTOU COM FORÇA TOTAL E SUA FALTA FOI SENTIDA POR TODOS NÓS !!!

PS: Só uma peguntinha, os ptralhas deixaram vc sair ileso ??????????

Costajr disse...

Obrigado pelo incentivo. O engraçado desse discurso é que o fiz faltanto duas horas para a solenidade. Saiu, praticamente na hora, ainda bem que deu certo!

PS: os petralhas tem mais o que fazer, deixem eles importunando o Reinaldo.

um abraço.

Ricardo Rayol disse...

Parabens, pela colação e pelo discurso. Em que colegio estuda (no caso estudou)? Sou brasiliense e praticamente estudei toda a minha vida no Maristinha, saindo para o rio e completando o segundo grau no Maristão.

Costajr disse...

Amigo Rayol

Sou de Recife e vivo em Brasília desde 2004. Por que vim para cá? para vê se sobrava um pouco mais de farinha na quartinha.

Aqui encontrei meu espaço como professor de História. Dou aula no La Salle da 906 sul e no Santa Dorotéia da 912 norte.

Ainda não dou aula para a aristocracia... maristinha, maristão, galois, Leonardo da Vinci, Mackenzie, etc.

um abraço.