09 dezembro, 2006

Florbela Spanca

Até onde sei, não é comum as pessoas deixarem a vida no mesmo dia em que entraram nela. São raros os casos em que o aniversário natalício também o é da morte. Dias que seriam lembrados com alegria, ganham, por fatalidade, ou por deliberação desesperada, uma aura de tristeza. Lembro-me por exemplo que o dramaturgo Shakespeare que costumava comemorar seu aniversário em 23 de abril, veio a falecer nesse mesmo dia.

Florbela Spanca nasceu a 8 de dezembro de 1894 e quando completava 36 anos, matou-se. Como imaginar que uma moça que cantava em seus versos um amor tão intenso, possa ter sido capaz de um ato desesperado desses? Talvez, o único lugar em que ela se sentisse viva e feliz, fosse no reino dos versos. Lá, era possível, é possível, imaginar o impossível!Contudo, quando a realidade se impõe e a dureza da vida nos corta, a sensibilidade de Florbela não suportou, e assim, ela desertou da vida.

Em homenagem a essa poeta portuguesa que amou mais do que devia, escolhi para publicar, por razões distintas, dois poeminhas dela. O primeiro é bastante conhecido no Brasil porque foi musicado por Fagner, o outro, por ter sido a primeira poesia que li dela. Então leiam Florbela Spanca.

Fanatismo


Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !


Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !


"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !


E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."


Livro de Soror Saudade (1923)

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Os versos que te fiz


Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.


Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder ...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !


Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda ...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !


Amo-te tanto ! E nunca te beijei ...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!


2 comentários:

Anônimo disse...

Oi Costa! Adoro Florbela Espanca!!! Quanto ao comentario no blog do Eneadactilo ("tenho que concordar com o Costa Jr"), foi somente forca de expressao, haha. Na verdade mesmo estava em posicao de defesa, ja que todo mundo estava malhando o cristianismo. Como se fosse a religiao mais barbara do mundo. Voce foi o unico que nao malhou. Acho que foi por isso. Beijos e ate mais!

Anônimo disse...

Puxa, agora vc acertou no meu gosto pessoal.

Adoro ela !!!!!!!!!!!

A alma artística é hiper sensível á realidade, pq o mundo do poeta não se encaixa nessa vida nua e crua.

Eu sou uma realista, atéia, por isso sempre me maravilho no mundo da poesia, arranca de mim essa sutilezas enterradas no fundo da minha alma.

É sempre bom passar pela sua casa.