15 novembro, 2006

IESB 1

Lá vou eu entrar numa seara perigosa e sujeita a retaliações. Tenho uma aluna do 3º ano que conseguiu ser aprovada em primeiro lugar no vestibular do IESB para o curso de Direito e na classificação geral ficou entre as 10 primeiras colocações. Todos na escola, com justa razão, parabenizaram a aluna pela performance, mas acredito que assim como outros alunos dessa turma, minha aluna nasceu mesmo foi para ser Pop Star, explico-me: Há uma propaganda do IESB que exibe várias pessoas, todas jovens, demonstrando pouco talento naquilo que se propuseram a fazer, no final da propaganda vem o slogan: “nem todo mundo nasceu para ser Pop Star”. Concluo que se você é medíocre no que faz, faça IESB, lá sua mediocridade será reconhecida.

Tive acesso à prova do grupo II e logo na primeira página me deparei com um texto obscuro, ininteligível. Um texto em que ou o aluno perde de vez o prazer pela leitura ou tem a sensação de que é um analfabeto funcional porque não consegue entender o que o autor quis dizer. Para piorar, o texto usado como referência para os itens da prova de Língua Portuguesa não tinha qualquer importância contextual. Foi, para ser magnânimo, um péssimo pretexto para se cobrar questões de gramática e de redação. Vou reproduzi-lo abaixo, apenas um trecho, porque vocês, meus 12 leitores fiéis, não merecem tanto sofrimento.

Montesquieu Desmontado

“Há um ponto em comum entre a ditadura nas democracias atuais: o goevrnante quer manter o poder em suas mãos.

Na ditadura, a administração do Estado é sempre piramidal: há o poder central uno, que se divide em níveis (ou tentáculos). Nestes, a força é diluída na dupla proporção de sua distância do centro e do maior número de executores das ordens emanadas do alto ou da exacerbação delas, ante a menor expressão daqueles sobre os quais a opressão recai.” (atenção Luís Ricardo você me ajudaria a compreender essa parte sublinhada? Confesso minha limitação.


Como vocês já perceberam, o título do texto é Montesquieu Desmontado. Li, reli, li outra vez e não vi qualquer referência ao filósofo iluminista. Quem assina essa patifaria textual é um respeitável advogado e graças a Deus ex-professor de Direito da PUC de São Paulo. Com todas essas referências é preciso dizer: Ele escreve mal e no texto citado, provou conhecer muito pouco de teoria política. Em seu obscurantismo textual ele diz que todo governante tem como principal interesse se manter ou mesmo se perpetuar no poder, essa idéia não é original, no século XVI Maquiavel com muito mais talento literário e teórico já nos explicava isso, mas o autor avança na tolice teórica: ele confunde governante, pessoa; com partido, instituição. Numa democracia de cunho liberal os governantes cumprem um mandato que pode ser renovado. Numa democracia séria, as eleições são livres e sem fraudes de modo que a vontade popular se impõe de forma soberana e o governante e o seu partido são julgados pelo povo periodicamente. Que um partido busque o poder e tente mantê-lo o máximo de tempo possível é próprio da natureza dos partidos numa democracia, mas isso não quer dizer que um governante de um determinado partido procure se eternizar no poder, se ele procura não é democrático. É finalmente, é própria da democracia a alternância de poder, coisa que a ditadura não admite.

Na ditadura o povo está alijado dessas escolhas. O governo se impõe pela força e não raras vezes pela violência política e pelo cerceamento das liberdades civis. Procurar sinonímia entre um sistema e outro é atestar a ignorância absoluta sobre o tema ou oferecer uma interpretação muito tosca de teoria política.

O texto assinado pelo senhor Walter Ceneviva, desculpe senhor Ceneviva se o trecho do IESB prejudicou a compreensão de sua tese, mas do jeito que foi publicada na prova do vestibular, ela não passa de uma estultície teórica. Sugiro ao pessoal do IESB das Ciências Sociais que procurem textos melhores para contextualizar a prova de vestibular dessa faculdade. Se for difícil, escolham uma saída mais simples: usem os clássicos, eles nunca terão pobreza literária, nem patifaria teórica. Ainda volto sobre a mesma prova do IESB em outro post, As coisa vão ficar piores.

Um comentário:

Luís Ricardo disse...

Zé Paulo, eu também não entendi patavina do que esse sujeito quis dizer. Existe uma crença no meio jurídico que escrever difícil é que é "chique". è claro que uma petição ou uma sentença bem escrita é ótimo, mas escrito com coerência. Nesse caso, ele preferiu usar a voz passiva deixando o agente da passiva indeterminado ficando o restante da frase como uma seqüência onde ele quis juntar mais de um raciocíno.
Eu diria que ele quer dizer que a força (que força é essa eu não sei, pode ser A Força, e esse cara, sem que a gente saiba, seja o Mestre Yoda, o que explica ser tão enrolado para exprimir uma idéia...) diminui na medida em que os paus-mandados se encontram em níveis hierárquicos muito baixos (meio óbvio, não?), e diminui também quando são muitos (muito cacique e pouco índio - outra idéia velha). A outra idéia é que esses paus-mandados exacerbam as ordens recebidas, principalmente quando aqueles que eles dominam reagem.
Ele quis juntar tudo e ficou essa coisa sem verbo que ninguém entende.
Um abraço e desculpe se escrevi demais.