25 novembro, 2006

30 anos e Fernando Pessoa

Ontem, completei 30 anos e desde os 12 não havia tido uma comemoração tão especial quanto a de ontem. Amigos que fiz no Planalto Central e que não via há tempos, prestigiaram esse dia. Outros, que vejo com mais freqüência, também não se furtaram de me homenagear seja com a lembrança seja com a presença. Sei que muitos, e isso não é uma vaidade, garanto, em lugares distantes, também relembraram da efeméride, guardaram-na no coração, que é sem dúvida o lugar mais importante para ser guardado dias como esse.

Há em todo aniversário um quê de reflexão. Uma espécie de imposição da data paraum balanço da vida. Quando se faz 30 anos, essa imposição apresenta uma força maior. Foi aos 30 anos que Santo Agostinho, na distante Tagasta, no igualmente distante século IV, abandonou o homem velho e se revestiu do homem novo. A Tradição diz que foi por volta dos 30 anos que Cristo começou sua meteórica e indispensável vida pública. Não é portanto uma data qualquer. Por isso, escolhi postar uma poema de Fernando Pessoa, através de Álvaro de Campos, que faz uma análise sobre dias de aniversário. A análise é melancólica, concordo, mas nem por isso menos verdadeira. Ei-la!

Aniversário

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...




4 comentários:

andre wernner disse...

Meu caro Costajr,
Com o devido atraso, só agora eu li o seu blogue, receba os meus mais sinceros cumprimentos pela passagem dos seus trinta anos! Ô idadezinha boa essa... Pena que não volta mais. Desejo tudo de bom, recheado com muita grana que é para curtir bastante, ok?
Vou fazer um registro lá no meu blogue...
E as visitas ao seu, melhoraram? Vou recomenda-lo aos amigos.
Enquanto isso prestigie o blogue da minha amiga Patrícia Haddad, no www.patricia haddad.com
Abs

Costajr disse...

A marca de 12 leitores tem se mantido inalterada. Não é muito, não chega a 15, mas são leitores muito caros a mim.

um abraço.

andre wernner disse...

Costajr,
Aí está novamente o endereço da Patrícia. Acho que agora vai...
Já postei 'você' lá no meu blogue. Confira! Convidei outros amigos a visitar você também,ok?
Já respondi o seu comentário sobre a Galisteu...
Abs
http://www.patriciahaddad.com/

David disse...

Pois é. Como sempre pode-se valer da poesia para arrefecer certos ânimos, principalmente os mais amargos. Grato pela dica.
E considere-se linkado.

Um abraço.