30 outubro, 2006

Rui Barbosa tinha razão!




Nas trevas a que nos destinamos ontem, quando a ignorância é antes sinal de prestígio do que de repúdio, onde a moral dos ímpios prevalece sobre a moral dos decentes, devemos recorrer aos clássicos! Essa atitude não é original, reconheço. Lá pelos idos do século XIV, Francesco Petrarca, abismado com a truculência e a ignorância dos homens de seu tempo declarou que se sentia mais à vontade revisitando os clássicos do que conversando com os seus contemporâneos. Um pouco mais tarde, no século XVI, Nicolo Maquiavelli, depois de um revés político em Florença, se refugia em sua casa e passa, segundo ele, a conversar com os antigos. Dessa conversa saiu Il Principe, até hoje leitura obrigatória de quem não tem horror ou desprezo aos livros. Em síntese: Quando as trevas da ignorância se impõem, quando o cinismo desmedido vira prática corriqueira, os clássicos hão de nos salvar da bárbárie que se avizinha.

Em 1910, aqui mesmo por essas plagas, ocorria de fato, a primeira campanha presidencial da República Velha. Pela primeira vez, nosso país vivenciava uma disputa eleitoral acirrada: De um lado o general Hermes da Fonseca, apoiado por Minas Gerais e outras oligarquias, e do outro, o intelectual, jornalista e filólogo, Rui Barbosa, apoiado por São Paulo. Essa campanha ficou conhecida pelo nome de Civilista e atraiu para o debate a classe média que se formava no Brasil e os estudantes, ciosos de acabar com as práticas espúrias do processo político na República Velha. Nos discursos de Rui Barbosa valores como decência, republicanismo, submissão ao império da lei, pareciam palavras estrangeiras para os eleitores do grotões, dependentes do coronel, cujos votos eram rigidamente controlados pelo cabresto do grande proprietário.

Lula não sabe quem foi Rui Barbosa. É possível apenas que ele se lembre que havia, lá pelos idos de 1984, uma cédula de 10000 cruzeiros (que o Plano Cruzado na era Sarney transformou em 10 cruzados) , que trazia a efígie de um senhor, que diziam tratar-se de um tal Rui Barbosa. Como estamos na época da ignorância e como alguns amigos petistas lêem esse blog, vou fazer o favor de esclarecer algumas coisas:

Rui Barbosa, pequeno em estatura, mas um gigante no saber, foi, desde a época do império, um intelectual festejado, chegando a receber elogios públicos do imperador D. Pedro II pela sua notável inteligência. Sua consagração se deu em Haia, na Holanda, numa conferência de Paz. Naquela época um observador que acompanhava o encontro de diplomatas escreveu: "As duas maiores forças pessoais da Conferência foram o Barão de Marschall da Alemanha, e o Dr. Barbosa, do Brasil... Todavia ao acabar da conferência, Dr. Barbosa pesava mais do que o Barão de Marschall". Ao retornar ao Brasil consagrado pela sua atuação em Haia, houve uma verdadeira manisfestação de orgulho pátrio pela performance de Rui Barbosa no exterior. Houve uma época no Brasil em que a intelectualidade era motivo de orgulho de uma nação, acreditem! Hoje, ficamos felizes e achamos até histórico, que um líder operário que teve tudo para estudar, que ganha desde os anos 80 um salário de um partido e uma pensão vitalícia do governo, se orgulhe ao dizer que tudo que aprendeu foi na vida, na lida, com a mãe analfabeta, essas parolagens... que lamenta, mas nunca fez um esforço para resolver isso, de nunca ter sentado, porque não quis repito, numa banca de universidade. Achamos lindo que o primeiro mandatário do país faça a apologia da ignorância.

Por que cito Rui Barbosa? porque no senado federal quando a capital era no Rio de Janeiro ele fez um pronunciamento que o Alckmin bem poderia ter feito ontem ao reconhecer a derrota para o apedeuta. As palavras de Rui Barbosa pronunciadas há 86 anos são espantosamente atuais e servem se ilustração para os tempos que vivemos:

"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto."



Um comentário:

Anônimo disse...

As eleições passaram e a vitória é constatada. Nada mais há que se possa revogar a situação.
Contudo, há que se ter ainda esperança de um governo melhor, mesmo se tratando do Lula.
Esperança, infelizmente, ainda é uma das poucas coisas que nos restam de um país em que a corrupção nos tira até a honra.
De que adianta pensar no quanto ainda nos falta para ser roubado, no quanto a campanha silenciosa à favor da ignorância e da desesciolarização se faz gritante sobretudo aos mais joves se, lá no íntimo, não tivermos esperança de que as coisas podem ser diferentes? Seria cair em depressão em vez de lutar por algo novo...
É, a esperança, a força que move a ação frente a um dado momento histórico instalado.
Há, sim, que se discutir, criticar, denunciar, acompanhar a política e aqueles que se dizem representantes do povo. Não se pode fechar os olhos para o que estar por vir.
Contudo, mais importante do que olhar para as coisas e ver como elas estão, é preciso pensar com como elas poderiam ser de fato!
É neste sentido que não se deve condenar os que esperam por mudanças, os que acreditam que todos podem crescer em termos de consciência ética, (até mesmo os políticos do PT!). Acredito que todos nos tornamos pessoas melhores a cada dia...
É possível até revoltar-se, mas perder a esperança jamais!!!