20 outubro, 2006

Conversa de Matuto

























Patativa do Assaré, o de chapéu, poeta popular cearense, cego, semi-analfabeto, mas com um talento invejável para os versos, escreveu Conversa de Matuto. Decidi reproduzi um trecho dessa poesia que fala de dois amigos sertanejos conversando sobre eleição: Zé Fulô tenta convencer João Moiriço a votar no candidato que lhe prometeu várias benesses se eleito. Deixemos de prosa e vamos aos versos:

Zé Fulô:

No comiço ele falou
Que depois que ele vencê,

Vai com gosto protegê

A cada um inleitô.
O povo trabaiadô

Que padece no roçado

Pode votá sem coidado
Que depois das inleição

Com a sua proteção

Vai tudo recompensado


Aquele é home de bem,

Quando desceu do palanco,

Falô com preto, com branco,

Com rico e pobre também;

Ali não ficou ninguém

Pra ele não abraçá,

Veve sempre a conversá,

É alegre e satisfeito,

Num homem daquele jeito
Faz gosto agente votá


Isto que eu tou lhe falando

É bom para nosso futuro,

Nóis tamo num grande escruro

E uma ESTRELA vem briando;
Veja que você votando

Neste home de tanto brio,

Em quem com gosto confio,

É um negoço importante
Vai havê de agora em deante

Escolas pra nossos fio!


João Moiriço:

Meu amigo Zé Fulô,
Vou lhe dizê a verdade:
É véia a nossa amizade
Porém você se enganou.
Pode pedi, que eu lhe dou
Uma quarta de feijão
Uma arroba de argodão
E cinco metro de fumo,
Tudo com gosto lhe arrumo,
Porém o meu voto, não!

Lhe dou se você quisé
Minha boa lazarina
E o meu galo de campina
Que eu amo com muita fé,
Dou minha porca Baié
E o meu cachorro Sultão,
Maria dá um capão
E o Chico dá um cabrito,
Isso tudo eu admito
Porém o meu voto, não!

Portanto, vá se aquetá
Não entre nesse curtiço,
Não vá dexá seu serviço
Pra sê cabo eleitorá.
Vá sua casa zelá,
Vá cuidá de seu trbaio,
Não pegue nesse baraio,
Se não você perde o jogo
Água é água e fogo é fogo
Cada macaco em gaio.

Um comentário:

Muaci disse...

Grande Poeta, grande sábio. Apaixonado pela poesia, pelo sertão, pelo seu povo. Apesar de não concordar com o conteúdo do poema, acho-o lindíssimo!