21 julho, 2006

Respondendo um e-mail

Um amigo de Recife me mandou um e-mail estranhando minhas novas posições políticas. Chegou, de forma educada e polida, a insunuar que eu estava trabalhando para algum político da '"Direita" em Brasília, ou seja, para ele, minhas novas idéias foram compradas. Entendo bem esse amigo, ele acha que todo morador de Brasília é assim chegado a uma maracutaia, a uma falcatrua, é propenso a corrupção.

Bem... respondendo ao amigo que lamenta minha conversão ao lado negro da Força, tentarei o argumento de um outro Paulo, bem mais talentoso "Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino" I Coríntios, 13 -11



2 comentários:

João Batista disse...

E eu lembro Otto Maria Carpeaux:

“Science-fiction - o Estado de SP, 16 mai 1959.

Há motivo para supor que os romances fantásticos de viagens astronáuticas e de exploração de planetas e outros mundos desconhecidos são tão lidos no Brasil como em qualquer parte. ... E a crítica acha que a science-fiction, embora não sendo científica, em compensação tampouco é ficção, mas literatura de cordel.
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Science-fiction é substantivo composto. Ensina a gramática [aquela que o cara que você corrigiu despreza rsrs] que no caso da combinação de dois substantivos nenhum deles guarda inalterada a acepção: os dois sentidos modificam-se reciprocamente. A Ciência, em science-fiction, não é científica, mas deliberadamente ficcionalizada. Por outro lado, a Ficção, em science-fiction, não quer ser mera ficção, mas possibilidade científica. Em suma: trata-se de Ciência que não exige deduções e provas, mas que exige ser aceita assim como o crente aceita artigos de sua fé [acho que o blogildo se interessaria pelo que vou transcrever a seguir]. Tratando-se de literatura sobre planetas, espaços interplanetários e outer space, fora do sistema solar, o caso lembra o caráter semi-religioso da astrologia, que só foi possível e só foi acreditada antes de Copérnico destruir a astronomia geocêntrica. Com efeito, sem Copérnico ainda acreditaríamos nos gênios que dirigem os astros e sem Copérnico não haveria science-fiction. O fato de ter surgido aquela suposta literatura de cordel faz parte da Geistesgeschichte (http://en.wikipedia.org/wiki/Geistesgeschichte), da história intelectual e espiritual da humanidade moderna. O assunto é serio.

A idéia de habitabilidade de corpos celestes e da presença, neles, de criaturas não podia surgir se a ciência não provasse antes a semelhança entre aqueles corpos celestes e a nossa Terra. O responsável pela science-fiction é, em última análise, Galileu: pela exploração telescópica da superfície da Lua e pela descoberta dos satélites de Júpiter. A conseqüência imediata: Kepler, astrônomo tão grande quanto Galileu e o último que ainda acreditava misticamente em horóscopos, escreveu a primeira science-fiction, o Somnium seu de astronomia lunari. Mas a perda daquela fé mística obriga logo o novo gênero a servir a objetivos mais profanos. Viagens para outros mundos podem ter tendência satírica, como no Voyage dans la Lune, de Cyrano de Bergerac. O maior exemplo é Gulliver’s Travels, de Swift: Liliput e Brobdingnag são nosso mundo, observado pelos novos instrumentos científicos, o microscópio e o telescópio.
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Em trabalho recente, Vom Staatsroman zur science-fiction. Eine Untersuchung üeber Geschischte und Funktion der naturwissenschaftlich-technischen Utopie (“Do romance politico à science-fiction, Um estudo sobre a história e a função da utopia cientifico-técnica”; Stuttgart, Enke, 1957), Martin Schwonke acaba de estudar o papel das utopias técnicas na evolução do pensamento social. Pois também é science-fiction a primeira utopia socialista: La Città del Sole, de Campanella (o “socialismo” de Platão e o de Thomas Morus são diferentes); e Schwonke deixa de mencionar o caso do filósofo estóico Blossius, no século II a.C., que inspirou uma revolta dos escravos na Ásia Menor com um (perdido) livro utópico sobre a igualdade de todos os homens no Sol (v. J. Bidez: La Cite du Monde et la Cite du Soleil chez lês Stoïciens, Paris, 1932) [aqui o blogildo pode entrar com aquela história do Cristo Cristão]. Por outro lado, também é science-fiction a Nova Atlantis, de Bacon, a utopia da sociedade mercantil e industrial. Durante o século XVIII todo, as utopias da ilustração pré-revolucionária são situadas em continentes desconhecidos ou em planetas; enquanto a utopia que antecipa invenções técnicas, como a de Jules Verne, também gosta de passear até a Lua.

Mas acontece que as antecipações de um Verne foram logo superadas pela realidade. A fantasia dos autores de livros de leitura infantil não conseguiu competir com a imaginação criadora dos físicos, químicos e engenheiros. Por isso seus livros deixaram de ser lidos pelos adultos. A verdadeira science-fiction dos anos entre 1900 e 1920 é de outra natureza: explica tudo pela sociologia, pela ecologia, eventualmente pela psicologia, ciências em que a época depositou fé religiosa. A própria psicanálise transformou-se em ficção, nas mãos dos romancistas; e o marxismo, nas mãos de outros romancistas. Mas em 1920, mais ou menos, volta de repente a science-fiction em seu sentido atual: a literatura “astronômica”, conseguindo tiragens astronômicas. A parte menos adulta da humanidade, especialmente no hemisfério ocidental (mas não esqueço Aelita, do russo soviético Alexei Tolstoi), embarca para os planetas e os espaços da Via Láctea. É uma loucura coletiva.

Para chegar-se ao diagnóstico, é preciso prestar atenção àquilo que importa aos autores e leitores. Chega-se, então, a uma descoberta surpreendente: na science-fiction moderna, a ciência e a técnica desempenham papel secundário. Tenho lido, gemendo, várias dúzias desses livros: nenhum deles supõe ou transmite conhecimentos de astronomia (de matemática nem se fala; e a física moderna, a teoria da relatividade e a dos quanta, é cuidadosamente excluída) [vale ressaltar que hoje busca-se maquiar as obras com pseudo-ciência, ou em outras palavras, ainda mais ficção científica]. Tampouco fazem s autores esforço para descrever de maneira crível os astronavios, os instrumentos de observação e controle, etc. O ambiente físico nos corpos celestes também é apenas esboçado. A science não importa. O que importa é a fiction, isto é, a aventura. Toda uma imensa literatura de contos de fadas, de viagens e aventuras, de Marryat e Stevenson [não é brasileiro], caiu em esquecimento para renascer na science-fiction: façanhas heróicas em face de perigos monstruosos, fidelidade comovente de companheiros, traição infame, revoltas e motins de tripulação, a autoridade do chefe nato e, embora muito secundariamente, uma ou outra affair amorosa – eis os enredos sempre repetidos da moderna Odisséia dos espaços interplanetários. O amor não conta muito, evidentemente, porque os leitores, conquanto não sejam meninos, têm a idade mental de meninos. Essa science-fiction moderna nunca será degradada à literatura infantil. O “puerilismo” do nosso tempo, que já foi diagnosticado por Huizinga, encontra na science-fiction uma manifestação quase tão característica como as histórias em quadrinhos. Essa literatura de cordel fornece ao leitor comum todas as trivialidades, horrores, sentimentalismos, etc. que a literatura moderna exclui cuidadosamente dos seus enredos (ou da sua falta de enredo). A science-fiction faz questão de não tocar nunca em problemas psicológicos ou questões sociais. Ao embarcar para o espaço, perdeu o contacto não só com a terra, mas também com a realidade [note-se que o ponto é a perda da conexão com a realidade, então mesmo que se fale da Terra, é uma Terra fictícia, com problemas fictícios vagamente inspirados na realidade pueril do autor]. Evasão? Mas essa evasão tem objetivo bem definido: cancelar um processo histórico.

A inquietação política, social e religiosa do nosso tempo já foi muitas vezes comparada à época da Reforma e do barroco. Entre 1500 e 1600 sofreu o gênero humano uma humilhação nunca completamente esquecida porque insuportável: a humilhação cosmológica. A terra e o homem perderam a posição no centro do Universo [belo “materialismo”, o pessoal tomou o ponto de localização espacial como centro, o ponto não é esse. Rsrs]. No fundo, os inquisidores, do seu ponto de vista, tiveram razão contra Galileu: perdeu-se certeza de fé e de salvação, perdeu-se substância religiosa. O Deus fora desse novo universo infinito já parece cuidar menos de suas criaturas, tão insignificantes, exiladas num planeta entre outros [i.e. o acaso do blogildo]. Os astros, preocupados com a regularidade das suas órbitas, já não regem destinos nem há lugar neles para gênios astrais. O Universo está vazio. E Pascal dirá: “Lê silence éternel de ces espaces infinis m’effraie” [effraie é frighten, assustar, me assusta].

A science-fiction é tentativa de repovoar o espaço. Não é a única. Também há os discos voadores: visões cuja natureza religiosa ou pseudo-religiosa foi muito bem esclarecida por C. G. Jung (Ein moderner Mythos: Von Dingen, die am Himmel gesehen werden; “Um mito moderno. Sobre coisas vistas no céu”, Zurique, 1958). A tentativa de maníacos repórteres americanos e suprimir o efeito desse livro do psicólogo suíço, atribuindo-lhe um artigo falsificado em que teria admitido a existência dos discos voadores, revela que a nova fé já tem seus fanáticos e inquisidores. Trata-se de religião, ou antes de sucedâneo (Ersatz) de religião. E não é nova. Os objetos resplandecentes que aparecem no céu são imitações baratas das visões dos místicos de todos os tempos. E os habitantes de planetas, na science-fiction, dotados de forças físicas e mentais superiores às nossas, são reedições dos gênios astrais da época pré-copérnica. Mais exatamente: são anjos.

Science-fiction é, inconscientemente, literatura pseudo-religiosa, literatura de edificação do homem que já não suporta sua solidão no Universo. Conscientemente teológica só é a science-fiction do inglês C. S. Lewis; mas este, cristão crente, acredita na existência do mal no mundo; e em seus livros, os habitantes de outros planetas dispõem de forças sobre-humanas, não porque são anjos, mas porque são diabólicos. O sonho do desejo de conquistar o espaço [a fronteira final] produz seu efeito psicológico contrário. É o medo de uma catástrofe cósmica e de destruição do mundo. Ao critico alemão Eschmann devo referência a um trabalho do psiquiatra americano Robert Plank (in International Record of Medicine, Filadélfia, CLXXVII/7) sobre The Reproduction Fiction. A psicose é caracterizada pela perda total do contato com a realidade. Literariamente, a conseqüência é a baixa qualidade: literatura de cordel. Mais interessante é a conseqüência psicológica, estranha em autores anglo-saxônicos: a ausência completa do humor. A science-fiction é bastante séria.

Entre as realidades excluídas pela science-fiction encontra-se a da própria Ciência. Não querem saber da Teoria da Relatividade, na qual o Universo é ilimitado, mas não infinito; porque as viagens no espaço não devem ter ponto final. Se não fosse assim, os viajantes dos astronavios, depois de terem percorrido espaços ilimitados, chegariam ao seu ponto de partida, nesse Universo curvo: à Terra, onde existem coisas muito mais interessantes do que na Lua e onde há problemas para resolver com que nem sonham os hipotéticos habitantes de Marte. Aqui embaixo até é possível o que não se pode fazer ali no alto: ouvir estrelas.”

Meninos perdidos nas estrelas do PT.

Anônimo disse...

Aprendi muito