23 junho, 2018

Sem democracia não há civilização.






Se aos intelectuais das peças de Tchékhov, sempre fazendo conjecturas sobre o que seria a vida dentro de vinte, trinta ou quarenta anos, tivessem respondido que na Rússia se torturariam os acusados durante a instrução do processo, que se lhes apertaria o crânio com um anel de ferro, que se submergiria uma pessoa num banho de ácidos, que se ataria um homem nu para o expor às formigas e aos percevejos, que se lhe introduziria uma baioneta em brasa pelo orifício anal (“a marca secreta”), que se lhe comprimiriam lentamente com uma bota os órgãos sexuais e que,, como tratamento mais suave, se torturaria alguém durante uma semana, sem o deixar dormir, nem lhe dar de beber, espancando-o até deixar-lhe o corpo em carne viva – num uma só dessas peças teia chegado até o fim e todos os seus heróis teriam ido parar num manicômio.

E não só os heróis de Tchékhov! Que russo normal dos começos do século e, entre outros, que membro do Partido Social-Democrata Russo poderia suportar semelhante difamação lançada contra o futuro luminoso? Aquilo que ainda se admitia sob o poder de Aleksei Mikháilovitch e que já sob Pedro, o Grande, parecia bárbaro, aquilo que nos tempos de Bryon podia ser aplicado a dez ou vinte pessoas e que já era completamente impossível de suceder no reinado de Ekaterina, isso foi realizado em pleno florescimento da sociedade do nosso século XX, concebido segundo princípios socialistas, quando já voavam aviões e já havia surgido o cinema sonoro e o rádio. E foi realizado não por um criminoso isolado num lugar secreto, mas por dezenas de milhares de bestas humanas, especialmente amestradas, contra milhões de vítimas indefesas.

SOLJENÍTSIN, A. Arquipélago Gulag. p. 102. Ed. Biblioteca do Exército editora. 1976.

21 junho, 2018

SERIA CÔMICO SE NÃO FOSSE TRÁGICO!


Eis um pequeno quadro daqueles anos: está decorrendo (na região de Moscou) a conferência do Partido da zona. É dirigida por um novo secretário, em substituição ao recentemente detido. No fim da conferência é aprovada uma mensagem de fidelidade ao Camarada Stálin. Como se compreende, todos se põe de pé (do mesmo modo que no decorrrer da conferência todos saltavam da cedeira cada vez que era mencionado o seu nome). Na pequena sala ressoam “tempestuosos aplausos que se transformam em ovação”. Passam três, quatro, cinco minutos e são cada vez mais tempestuosos os aplausos redundando numa ovação. Mas afinal começam a doer as mãos. Fatigam-se os braços levantados, já vão sufocando as pessoas idosas. Aquilo passa a ser estúpido até para aqueles que sinceramente admiram Stálin. Entretanto, quem é o primeiro que se atreve a parar? Poderia fazê-lo o secretário da zona, que se encontra de pé na tribuna e acaba de ler essa mesma mensagem? Mas ele está ali há pouco tempo e encontra-se no lugar do recém-detido, endo ele próprio medo! Na verdade, na sala estão também de pé, aplaudindo, os membros da NKVD e eles observam quem é o primeiro que se atreve a parar!... E os aplausos na pequena e desconhecida sala, ignorada pelo chefe, prolongam-se por seis minutos! sete minutos! oito minutos!... eles sucumbem! Estão todos perdidos. Não podem parar, enquanto não tombarem com os corações despedaçados? Ainda no fundo da sala, no meio do aperto, pode-se ludibriar um pouco, aplaudir mais devagar, não tão forte, não tão furiosamente, mas que fazer no Presidium, à vista de todos? O diretor da fábrica local de papel, uma personalidade forte, independente, faz parte do Presidium e compreende toda a falsidade, todo o beco sem saída da situação, mas aplaude! – Decorre o nono minuto! O décimo! Ele olha aborrecido para o secretário da partido da zona, mas este não se atreve a papar. É uma loucura! Uma loucura geral! Olhando-=se uns aos outros, com uma débil esperança, mas fingindo êxtase nos rostos, os dirigentes da zona aplaudiram até cair. Até que fossem levados em macas! E, até este momento, os restantes não vacilaram!... O diretor da fábrica de papel, no décimo primeiro minuto, fingindo-se atarefado, deixa-se cair no seu lugar, no Presidium. E, oh! maravilha! Esvaiu-se então o incontível, indescritível entusiasmo geral? De repente pararam no meio do mesmo aplauso e se sentaram todos de uma vez. Estão Salvos! O esquilo teve a ideia de sair da roda!...

Entretanto, é dessa forma que se conhecem as pessoas independentes. E é dessa forma que são postas de lado. Nessa mesma noite, o diretor da fábrica é preso. Com facilidade aplicam-lhe por outro motivo dez anos. Mas depois da assinatura do 206 (documento que conclui as investigações) o comissário instrutor recorda-lhe:

- Nunca seja o primeiro a deixar de aplaudir!

A. SOLJENÍTSIN. Arquipélago Gulag. p 78-79. Ed. Biblioteca do Exército. 1976.  



06 janeiro, 2018

Autocrítica



- Ei, você aí, não era aquele professor que criticava o movimento sindical na universidade e boicotava a nossa greve?

- Não sei do que o senhor está falando.

- Eu lembro. Você apoiando as manifestações contra a nossa presidenta! O que está fazendo aqui? Está arrependido, não é?

- Eu nunca apoiaria o PMDB e sua corja de bandidos. Tá, eu confesso que andei flertando com os valores liberais, mas aí o governo quis mexer nas minhas regalias de servidor estatutário e redescobri a beleza da esquerda universitária.

- Ficamos feliz que você tenha recobrado o juízo. Mas exigimos uma autocrítica pública, professor. Essa será a condição para que o aceitemos em nossas falanges militantes.

- Mas você não acompanha as minhas postagens? Estou compartilhando aleivosias, deturpando fatos, recorrendo à mistificação, vocês querem mais?

- Sim. Queremos uma retratação laudatória e incisiva, em que você reconhece a heresia e volta a crer em nossos valores.

O professor baixou a cabeça e derrotado assentiu sem dizer palavra. Ao sair da sala, os juízes comentaram. " Fiquem de olho nele. Quem muda tão rápido de lado não merece confiança"
O Departamento Geracional criou laboratórios de reprodução espalhados em todo o hemisfério. Esses centros de reprodução assexuada criavam embriões humanos a partir de células epiteliais. O embrião formado seguia para úteros de vidro, projetados para receber seis embriões de doadores distintos. O índice de sucesso desse tipo de reprodução assexuada era de 100%. 

As crianças formadas nesses laboratórios tornou a reprodução sexuada indesejada e, anos mais tarde, um crime contra a humanidade.  O controle de qualidade dos laboratórios de reprodução assexuada garantia, pela nova técnica, a saúde física e neurológica dos bebês produzidos.. 

Gerar um filho por meio natural (considerado por muitos cidadãos um costume selvagem, desde a invenção da nova técnica de reprodução) passou a ser muito arriscado, afinal, havia sempre o risco de mal formações e doenças congênitas, embora nesses casos o feto ou o bebê  inviável fosse descartado pela equipe médica. 

A nova técnica também tinha a vantagem de os solicitantes escolherem as características fenotípicas do bebê, o que fez o Departamento Geracional estipular regras que mantivessem a diversidade étnica da sociedade, que ficou ameaçada quando os solicitantes passaram a predominantemente,  pedir características de um mesmo grupo racial. 

Diante do sucesso da nova técnica, governo aprovou no Parlamento do Hemisfério uma lei que autorizava a esterilidade ainda no início da puberdade a fim de diminuir, no médio prazo, a indesejada reprodução sexuada dos indivíduos.

Segundo essa nova legislação, no início da puberdade os seres XX e XY eram submetidos a um tratamento radioativo cuja finalidade era inibir e depois impedir a gametogênese. Até os 15 anos a infertilidade estava assegurada aos XX e aos XY. O benefício, depois, foi estendido aos indivíduos de até 30 anos, quando ninguém podia mais, por lei, ter ou solicitar um bebê.

Em menos de quinze anos, por decisão do Secretariado do Ocidente, confirmada pelo Parlamento do hemisfério, foram revogadas, por inúteis, o direito universal à interrupção da gravidez. 

Já fazia décadas que o aborto era considerado um direito humano na Terra do Ocidente. As religiões que tanto lutaram para impedir esse avanço humanitário, por decisão de Nous, líder do Secretariado, tinham sido proibidas logo depois da aprovação dos Direitos Reprodutivos, que dava à mãe o dever de interromper uma gravidez indesejada  a qualquer tempo e de descartar a criança até três meses após o parto. 

Os Sacerdotes recorreram ao Tribunal Humanitário, que, por unanimidade, confirmou a legalidade da medida sob dois princípios: o primeiro, de que ninguém pode ser tolhido em seu direito individual por crenças supersticiosas; e o segundo, de que somente o Secretariado do Ocidente sabe o que é melhor para os cidadãos. Os juízes decidiram, também, que os sacerdotes e os fiéis perderiam o direito de recorrer à Justiça enquanto não abjurassem de suas crendices. 

A partir dessa decisão, divergir do Secretariado tornou-se um crime contra a humanidade.

04 janeiro, 2018

Educação todos defendem, poucos valorizam

Um dos lugares-comum que mais ganham simpatias no mundo real e no mundo virtual é a defesa pela valorização do professor. Taí uma pauta que junta carnívoros e veganos, petistas e tucanos, até docentes e discentes.

Quem pode ser contra  salários maiores para os professores e para as professoras? De quanto deveria ser esse salário? 10 mil, 15 mil, 30 mil? 

A razão de fundo, para mim, é que os brasileiros, de forma geral, inclusive os professores, com as devidas exceções (e não apenas o Poder Público), valorizam a educação de forma retórica. 

O pai ou a mãe questiona a escola quando seu filho não aprende o básico? Cobra dos professores o baixo rendimento dos filhos na escola? Exige dos filhos compromisso com a educação? Quantos pais não reclamam do que eles consideram preciosismo e até pedantismo de um professor mais rigoroso? Isso é valorizar a educação?

Na maioria dos casos se espera mais a promoção do aluno - muito mais!! - do que a qualidade na formação acadêmica.

Quantos professores lamentam as atividades precípuas de uma sala de aula? Quando se lastima a atividade em sala de aula, a correção de provas e tarefas e a preparação da aula o docente considera o seu trabalho uma atividade penosa, e nesse contexto como assegurar qualidade à aula? 

Quero fazer aqui uma pequena e  importante distinção: o lamento é diferente da reclamação. Esta indica mais uma insatisfação com as condições em que se trabalha - embora essa queixa também comprometa a eficiência da aula - e menos um arrependimento com a profissão escolhida. Normalmente, sanado alguns desses problemas, o professor queixoso recupera o entusiasmo e segue sendo sério. O professor lamurioso sempre encontrará motivos para não estar satisfeito.

Os alunos brasileiros refletem essa grande hipocrisia em que se discursa por uma educação de mais qualidade, mas na prática não se importa com ela. Quem nunca viu aquele aluno de péssimo rendimento acadêmico "lutando", "participando" dos movimentos em prol de uma educação de qualidade? 

Não temos, como povo e Nação, apreço pelo saber e nesse contexto não há como sonhar com um povo e um país mais próspero.

Quanto deveria ser o rendimento adequado de um professor? Se os professores fossem mais bem remunerados suas aulas seriam melhores?

Eu amo odiar o capitalismo.

Uma das boçalidades repetidas "ad nauseam" pelas esquerdas e outros tontos é a de que as reformas necessárias que o país precisa fazer só prejudicam o povão em favor da elite.

Isso é discurso vazio, demagógico, de engana trouxa. O sonho dos justiceiros sociais é de que a "famigerada" elite sinta as agruras do povão. Esse pensamento parte de uma premissa tão falsa quanto sedutora: a de que o pobre só existe por causa do rico, ou em termos marxistas: de que o explorador só prospera à custa dos explorados. 

É esse tipo de raciocínio que faz jornalistas sem leitura  publicar em letras garrafais o aumento das desigualdades como um problema em si. 

Essa crença tola na igualdade social exige como imposto a liberdade, e no fim não se tem nem uma nem a outra.

É sedutor o discurso que deplora a economia de mercado ( o cruel capitalismo). Quem se serve dele passa por amigo do povo, do bem, do belo e do justo. É ou não é irresistível? 

Ainda não escola, aprende-se como o capitalismo é mal e responsável por nossas mazelas. Como a maioria dos professores ignora o funcionamento da  economia de mercado e não se interessa por conhecê-lo, repete, como gravador, o que seus professores repetiram nas faculdades. E assim criamos uma nação que se beneficia do capitalismo, mas o odeia.
Em Os Intelectuais e a Sociedade, no capítulo 3, o economista Thomas Sowell  faz uma dura crítica a formadores de opinião que, sem conhecer o funcionamento da economia de mercado, criticam-na a partir de um julgamento moral da riqueza e da deturpação de dados estatísticos,bem que se confunde  categorias estatísticas com pessoas reais.

O trecho desse capítulo que quero comentar aqui é o que se refere à diferença entre mérito e valor para explicar porque o trabalho de alguns tem mais valor do que o trabalho de outros, e que nada tem a ver com o mérito de quem produz o bem ou o serviço.

"Um sapateiro pode ter mais mérito que um cirurgião, mas reparar sapatos não é tão valioso para os outros  quanto ser capaz de reparar problemas cerebrais". 

O valor pago a alguém por algo está diretamente ligado à importância que esse bem ou serviço tem para um grupo relevante de pessoas e/ou de quanto esse bem ou serviço é capaz de agregar valor. 

Se o Sport TV fala muito mais do Flamengo ou do Corinthians em seus programas não significa que esses clubes sejam necessariamente melhores do que os outros. Apenas indica que times de grande massa sustentam a audiência mais do os demais E a TV existe - e gera emprego e renda -  por causa da audiência. 

Quem não entende isso enxerga favorecimento onde só existe interesse econômico. Você acha isso errado? Um pecado? Ofereço duas saídas: 

1 - Não dê audiência a esses programas.
2 - Faça um programa, invista seu dinheiro, e não se importe se a maioria das pessoas não se interessar pelo conteúdo da atração.

24 outubro, 2017

Editorial do Estadão em 18/10/2017

No compasso da lei
De forma um tanto surpreendente, houve quem visse na portaria do Ministério do Trabalho tentativa de abrandar a legislação contra a escravidão
O Estado de S.Paulo
18 Outubro 2017 | 03h08
Até 2003, o Código Penal era parco em palavras ao tipificar o crime de “redução à condição análoga à de escravo”. Apenas atribuía à ação de “reduzir alguém à condição análoga à de escravo” a pena de reclusão de dois a oito anos. Com a Lei 10.803, de 11 de dezembro de 2003, o art. 149 do Código Penal passou a vigorar com a seguinte redação: “Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto: pena de reclusão de dois a oito anos, e multa, além da pena correspondente à violência”.
A Lei 10.803/2003 também estabeleceu que incorreria nas mesmas penas quem, com o fim de reter o trabalhador no local de trabalho, cerceasse o uso de meio de transporte, mantivesse vigilância ostensiva ou se apoderasse de documentos ou objetos pessoais do trabalhador. Também previu aumento de pena caso o crime fosse cometido contra criança ou adolescente ou fosse motivado por preconceito de raça, cor, etnia, religião ou origem.
As alterações do art. 149 do Código Penal foram um importante passo para aprimorar a legislação, fechando o cerco à prática do trabalho escravo e das condutas que reduzem o trabalhador à condição de escravo. Mas, para alcançar essa boa finalidade, é necessário que haja uma correta aplicação da lei, que não dê margens a abusos. Se é certo que toda a escravidão deve ser exemplarmente punida, não se pode equiparar à escravidão qualquer descumprimento da lei trabalhista. São coisas muito diferentes, com gravidades distintas, e que, portanto, devem produzir efeitos jurídicos diversos. De outra forma, haveria uma criminalização das relações trabalhistas, que, em última análise, seria extremamente prejudicial ao trabalhador.
Dentro do espírito e da forma da Lei 10.803/2003, de atribuir parâmetros objetivos para uma adequada avaliação do que é trabalho escravo, o Ministério do Trabalho editou recentemente a Portaria 1.129 “para fins de concessão de benefício de seguro-desemprego ao trabalhador que vier a ser identificado como submetido a regime de trabalho forçado ou reduzido a condição análoga à de escravo”, definindo o que é trabalho forçado, jornada exaustiva, condição degradante e condição análoga à de escravo. De forma um tanto surpreendente, houve quem visse na portaria uma tentativa de abrandar a legislação contra a escravidão. Como é lógico, um ato do Ministério do Trabalho não tem o condão de alterar qualquer lei. Cabe ao Executivo apenas regulamentar a legislação. De fato, a leitura da portaria dissipa eventuais críticas, pois se coaduna perfeitamente com o disposto na legislação.
Segundo o Ministério do Trabalho, trabalho forçado é “aquele exercido sem o consentimento por parte do trabalhador e que lhe retire a possibilidade de expressar sua vontade”. Já a jornada exaustiva, por exemplo, é definida como “submissão do trabalhador, contra a sua vontade e com privação do direito de ir e vir, a trabalho fora dos ditames legais aplicáveis a sua categoria”. Como se pode constatar, são descrições razoáveis, que não ferem a legislação. É forçoso reconhecer, no entanto, que a Portaria 1.129 contrasta não com a lei, mas com a interpretação que alguns agentes da lei – em especial, alguns membros do Ministério Público do Trabalho – fazem da legislação. Só dessa maneira se entende a crítica de alguns à portaria do Ministério do Trabalho. Há quem, sem ter mandato legislativo, queira ditar o conteúdo da lei, com interpretações que vão muito além do sentido literal dos textos aprovados pelo Poder Legislativo. O nome disso é arbítrio.
A portaria também especifica requisitos para que os autos de infração identifiquem trabalho forçado. Diz, por exemplo, que o fiscal deve descrever em detalhes a situação encontrada, exibindo fotos que evidenciem as irregularidades. Tais exigências são medidas de elementar prudência, seja para assegurar uma correta instrução das provas do crime, seja para diminuir a ocorrência de achaques de quem se vale da gravidade das penas para negociar benefícios pessoais. Quem aplica a lei precisa, antes de tudo, respeitar o trabalhador e o empregador.
Correção: Em vez de 19%, leia-se 1,9%, no final do antepenúltimo parágrafo do editorialPobres saem do sufoco, publicado ontem.

Outros textos relevantes:

O trabalho escravo e ignorância convicta.

É possível que você que acompanha o debate sobre a portaria 1129/2017, do MTE, esteja informado sobre o deferimento da liminar da ministra Rosa Weber, impetrada pelo partido Rede Sustentabilidade, suspendendo os efeitos da portaria.
É possível que você também saiba que a Procuradora Raquel Dodge voltou a criticar duramente a portaria.
É possível que você diante de tudo isso, cheio daquela indignação cívica e desinformada, conclua: "Eis aí o governo Temer facilitando o trabalho escravo no Brasil".
Rosa Weber não leu a portaria. Raquel Dodge não leu a portaria. Os jornalistas militantes não leram a portaria. A maioria das pessoas, se não todas, que estão indignadas, não leram a portaria.
Leiam e me digam em qual artigo, alínea, parágrafo há essa afronta ao combate ao trabalho escravo no país. Se vocês me mostrarem eu retiro tudo o que disse.
A portaria não redefine o trabalho escravo, mas o define, de modo a impedir que cada fiscal do trabalho, sem qualquer critério objetivo, determine a seu bel prazer o que é e o que não é trabalho escravo.
A seguir o link para a portaria.
Dispõe sobre os conceitos de trabalho forçado, jornada exaustiva e condições análogas à de escravo para fins de concessão de seguro-desemprego ao trabalhador que vier a ser resgatado em fiscalização…
LEGISWEB.COM.BR

23 outubro, 2017

A Crise da República em Roma.


Discurso de Cícero contra Catilina no Senado, por Cesare Maccari em pintura do século XIX


Estudando a República Romana e as razões de sua crise, temos alguns consensos:

1 - Se é verdade que os patrícios e os Homens Novos (os ricos, numa linguagem mais simples) eram quem de fato chegavam ao poder na República, é enganoso pensar que os plebeus, ou os pobretões se você preferir, eram meros joguetes dos interesses dos aristocratas e dos comerciantes endinheirados. Sem conquistar a plebe, dificilmente se chegava ao topo na República. Os irmãos Graco foram exemplos famosos, mas não únicos.

2 - A República Romana que a tradição diz que teve início em 509 a. C, mas que, provavelmente se estabeleceu de forma consolidada apenas no século IV a. C, não modernizou as suas instituições, especialmente no que tange ao processo eleitoral decisório, criando um vácuo de representatividade que vai cobrar o seu preço nos pouco mais de cem anos que separaram o assassinato de Tibério Graco e a ascensão de Otávio como imperador.

3 - O principal dilema da República que motivou tanto as guerras civis quanto as guerras sociais que minaram o regime, era sobre onde residia a legitimidade do poder: se na mão de uma elite esclarecida que entendia dos negócios de Estado; ou na plebe, que representada por líderes bem intencionados - invariavelmente ricos, mas com consciência social - deveria ter o comando das decisões. Sem conseguir resolver esse dilema de forma democrática, a República Romana ruiu.

Com Otávio, que inicia a Era dos Imperadores, o dilema foi resolvido. O poder ficou nas mãos do Imperador e a Plebe recebeu diversão e alimento para se sentir feliz.

Esse arranjo vai durar cerca de 300 anos, quando a situação fiscal do império, a falta de escravos, a queda na produção agrícola, a perda do prestígio do imperador e a pressão dos povos germânicos provocarem o colapso da parte ocidental do império.

Nossa República não tem, historicamente, respondido à altura aos grandes desafios. Sempre que eles se colocaram, optou-se pela acomodação. Foi assim em 1930, foi assim em 1945; foi assim em 1954-1955; foi assim em 1964; foi assim em 1985; e está sendo assim agora. Até quando, para citar expressão famosa de um orador romano, brasileiros, o establishment  político abusará da nossa paciência?

O que virá por aí, infelizmente, não me enche de esperança. No máximo, sinto aquela melancolia que Sêneca sentia nos tempos duros de Nero...

A boçalidade da esquerda e da direita beócia.

Se existe uma coisa em que a esquerda e a direita beócia são iguaizinhas é na obstinação de combater seus adversários ideológicos recorrendo ao moralismo disfarçado de interesse das minorias (no caso das esquerdas) e de defesa dos bons costumes (no caso da direita beócia).

A última é a movimentação contra o filme Como se tornar o pior aluno da escola, baseado em livro  homônimo do apresentador Danilo Gentili, persona non grata entre os esquerdistas, especialmente os petistas despudorados e enrustidos.

O filme, pelo menos a sua sinopse, retrata a vida de dois adolescentes tidos como bobões até aderirem a um manual de porralouqice.

O filme tem tudo daquelas comédias pastelões americanas um tanto idiota e com boa dose de palavrões, e que tanto sucesso fez nos anos de 1980 e 1990.

Se eu pagaria um ingresso para assistir ao filme? Não. Já não tenho mais idade para rir desse tipo de piada.

Mas o cerne desse texto é outro. Será que esse filme seria uma apologia ao preconceito e a intolerância, como acusa a esquerda? Ou um desserviço à educação porque se faz chacota com a escola? Como afirmam os moralistas de esquerda?

Eu tenho quase 41 anos. Cresci nos anos 80 e 90 assistindo diversos tipos de filme com esse teor. E sabia muito bem distinguir a ficção da realidade. Aliás, a Escolinha do Professor Raimundo, que passava diariamente nas tardes da programação da Globo, era em muitos aspectos mais ofensiva à escola e às minorias (usando o critério da esquerda) que o filme em questão.

Ao que parece, a esquerda está atuando em ordem unida porque o filme é do Gentili. Se fosse de outro comediante afinado com a ideologia estaria tudo bem.

O nome disso é ideologia.

21 outubro, 2017

Foi mesmo Bullying?

A tragédia de Goiânia que ceifou a vida de duas crianças e feriu outras três - duas em estado grave - numa escola privada da cidade, vem sendo tratada como uma consequência do Bullying que, supostamente, o agressor, colega de turma das vítimas, sofria. 

Pronto.  Foi o suficiente para que psicólogos, pedagogos, jornalistas e outros especialistas, todos certamente bem informados acerca das investigações, transformassem o assassino em vítima e as vítimas em algozes. 

É absolutamente prematuro afirmar que o assassino sofria Bullying dos colegas porque era alvo de gozações. Nem toda amolação, especialmente se ela não se dá de forma insistente e continuada, é um caso de Bullying. 

As primeiras informações enfraquecem a tese do Bullying e apontam para algum tipo de desequilíbrio emocional do jovem atirador. Mas tudo é muito recente para afirmar peremptoriamente qualquer coisa sobre as causas desse ataque.

Longe de mim considerar o Bullying um problema sem importância, mi mi mi de adolescente. Bullying é muito sério e deve ser combatido por todos, mas me parece que atribuir o ataque na escola Goyases a essa prática é minimizar a responsabilidade objetiva do assassino e culpar de alguma forma as vítimas, o que é uma crueldade.